Cirurgia Oncológica: Técnica, Humanização e o Futuro da Medicina

Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios

Neste episódio, recebi um convidado muito especial: o Dr. Rodrigo Nascimento Pinheiro, uma referência nacional e internacional em cirurgia oncológica. Conversamos sobre trajetória, técnica, humanização, prevenção e o futuro da medicina oncológica. Um episódio repleto de ensinamentos que compartilho agora com você.

Comecei Medicina muito jovem, aos 16 anos, movido pela curiosidade sobre o funcionamento do corpo humano. No início, não sabia ao certo o que queria da vida, mas logo percebi que estava no caminho certo. Fui atraído para a área acadêmica e, graças a bons professores e estágios, conheci a Oncologia e a Cirurgia Oncológica ainda na graduação.

Tive sorte de cair em um grupo de cirurgia oncológica logo no início da faculdade, na Federal de Alagoas. A convivência com cirurgiões especialistas em cabeça e pescoço despertou em mim uma enorme admiração. Comecei a acompanhar pacientes, mesmo sem saber fazer uma anamnese completa. Um episódio em especial me marcou profundamente: a noite em que passei horas conversando com um paciente internado no SUS, com quem compartilhei risadas e reflexões… e que, na manhã seguinte, faleceu. Percebi que, mesmo sem conhecimento técnico, eu havia proporcionado momentos de conforto nos últimos instantes da sua vida. Aquilo foi um divisor de águas: entendi o poder transformador do acolhimento e da escuta.

Cirurgia oncológica: mais que técnica, um sacerdócio

A partir daquela vivência, fui em busca de formação sólida: fiz Cirurgia Geral em São Paulo, no Hospital Heliópolis, e Cirurgia Oncológica no Instituto Nacional do Câncer (INCA), seguindo o mesmo caminho dos meus mentores nordestinos. Especializei-me em cirurgia abdômino-pélvica e, desde 2005, estabeleci minha prática clínica e acadêmica em Brasília.

Sempre acreditei que quem quer tratar câncer cirurgicamente precisa entender profundamente de oncologia. Não basta ser um cirurgião habilidoso. O câncer não é uma doença do órgão; é uma doença do paciente, que exige compreensão global, interdisciplinar e humana.

Hoje, como presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), trabalho para reforçar a importância dessa visão. Criamos, inclusive, comissões para acadêmicos, promovendo cursos e aulas específicas para estudantes. Acredito na força das ligas acadêmicas e das discussões abertas como forma de inspirar as novas gerações.

O desafio da formação oncológica no Brasil

A formação médica no Brasil, historicamente, foi muito fragmentada, focada em aparelhos e sistemas – influência direta do modelo americano. A cirurgia oncológica nasceu, não na academia, mas nos hospitais de câncer, como o INCA e o A.C. Camargo, com quase 90 anos de história.

O grande problema é que, ainda hoje, muitos cirurgiões se aventuram a operar câncer sem entender sua complexidade biológica e terapêutica. A nossa defesa é clara: todo cirurgião que pretende operar câncer deve, antes de tudo, conhecer oncologia profundamente.

Operar um câncer não é o mesmo que operar um órgão. É preciso saber sobre comportamento biológico, tratamento sistêmico, prognóstico, tempo de intervenção, além de coordenar equipes multidisciplinares. Na cirurgia oncológica, quem comanda o tratamento é um oncologista que também é cirurgião.

A cirurgia oncológica como eixo central do tratamento

Embora os tratamentos oncológicos sejam cada vez mais multimodais, envolvendo quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e terapias alvo, a cirurgia continua sendo a principal ferramenta curativa para a maioria dos tumores sólidos.

Dados mostram que cerca de 60% dos tumores sólidos são curados com cirurgia, e quase 59% em estágios iniciais são tratados apenas com cirurgia. Por isso, afirmo categoricamente: não há tratamento oncológico curativo sem cirurgia, salvo raras exceções.

Contudo, ressalto: cirurgia incompleta não tem conserto. Não adianta recorrer a quimio ou radioterapia para compensar uma cirurgia mal feita. Por isso, insistimos tanto na capacitação cirúrgica oncossistêmica.

Avanços tecnológicos: robótica, IA e medicina personalizada

Hoje vivemos uma verdadeira revolução na cirurgia oncológica, impulsionada pela robótica, inteligência artificial, genômica e terapias inovadoras como o CAR-T cell. Essas tecnologias ampliam habilidades humanas, melhoram precisão cirúrgica e possibilitam tratamentos que, há uma década, eram considerados ficção científica.

Mas nunca esqueço: o centro da tecnologia continua sendo o humano. Nenhuma IA substituirá a escuta, o acolhimento e a decisão clínica baseada na individualidade do paciente. Em tempos de inteligência artificial, precisamos ser cada vez mais humanos.

Prevenção: a verdadeira revolução

Apesar dos avanços tecnológicos, a maior ferramenta de combate ao câncer continua sendo a prevenção. Estima-se que 70% dos cânceres são evitáveis. Três fatores lideram o risco: tabagismo, obesidade e sedentarismo.

Não fumar, manter peso adequado, praticar atividade física e aderir à vacinação são atitudes simples que reduzem drasticamente o risco. Como sempre digo: prevenção é o tratamento mais barato e eficaz.

Humanização e limites: aprendendo a lidar com a finitude

Na oncologia, lidamos diariamente com a finitude. É uma área que nos obriga a refletir sobre limites éticos, emocionais e profissionais. O protagonismo sempre deve ser do paciente. Cabe a nós informar, acolher e construir, juntos, o caminho terapêutico.

Defendo que cuidados paliativos devem ser introduzidos precocemente na jornada oncológica, não apenas quando não há mais possibilidade de cura, mas como forma de assegurar qualidade de vida em todas as fases.

O profissional que quer tratar câncer precisa ter formação técnica robusta e, sobretudo, preparo emocional para lidar com sofrimento, perdas e escolhas difíceis.

Informação x Formação: dois pilares indispensáveis

Sempre digo: informação é importante, mas formação é indispensável. Informação você encontra no site do INCA, no portal da SBCO, em livros e artigos científicos. Formação, só com residência médica e treinamento prático em centros especializados.

O melhor começo para quem quer se aprofundar na oncologia é ouvir os pacientes. Entender, de fato, o impacto da doença nas suas vidas e famílias. O câncer não atinge só o corpo, mas o ser humano como um todo.

Finalizo esse episódio com a certeza de que a cirurgia oncológica é muito mais que técnica: é um compromisso humano, científico e ético. A tecnologia avança, mas a essência continua sendo o cuidado com pessoas.

Agradeço ao Dr. Rodrigo Nascimento Pinheiro por compartilhar sua trajetória inspiradora e suas reflexões profundas. Convido você a acessar o site da SBCO, conhecer mais sobre cirurgia oncológica e seguir se informando e se formando.

🎙️ Assista agora ao episódio completo do podcast Entre Neurônios no YouTube 


Com participação da psicanalista Dra. Karin Posegger e dos estudantes Paulo e Arthur

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