A trajetória inspiradora da Dra. Sabrina de Mello Ando na Radiologia

Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios

Neste oitavo episódio do podcast Entre Neurônios, tivemos uma conversa inspiradora com a Dra. Sabrina de Mello Ando, médica radiologista formada pela EPM-UNIFESP, com atuação destacada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), no Hospital Sírio-Libanês e no Grupo Fleury. Uma trajetória marcada por escolhas, mudanças de rota e muita determinação.

Da vontade de ser psiquiatra à paixão pela Radiologia

A Dra. Sabrina compartilhou que nasceu em Mogi das Cruzes, cresceu em Suzano e, inicialmente, pensava em seguir a Psiquiatria. Sua escolha pela Medicina foi motivada por histórias familiares e pela vivência de questões de saúde mental dentro de casa. Com muita dedicação, passou direto no vestibular para a Unifesp, realizando seu sonho de estudar em uma instituição próxima de sua cidade natal.

Durante a faculdade, porém, sua trajetória começou a mudar: após contato com diversas áreas, a expectativa inicial de atuar em Psiquiatria se transformou em dúvida entre Anestesiologia e Clínica Médica.

O momento de coragem: desistir da residência em Clínica Médica

Após a graduação, Sabrina ingressou na residência em Clínica Médica na Unifesp. No entanto, o cotidiano do pronto-socorro, as demandas clínicas e a percepção pessoal sobre suas habilidades e preferências fizeram-na refletir. Ela identificou que seu perfil mais reservado e metódico não se adequava ao contato direto com os pacientes da forma que a clínica exige.

Corajosamente, após três meses, decidiu interromper a residência — um momento de muita reflexão e que exigiu maturidade para lidar com as pressões internas e externas. “Foi uma decisão difícil, mas necessária”, relatou. Foi nesse contexto que surgiu a Radiologia como nova perspectiva.

O encanto pela Radiologia: precisão e resolutividade

Durante o período na Clínica Médica, Sabrina percebeu o papel crucial da Radiologia no diagnóstico e no tratamento dos pacientes. A possibilidade de contribuir de forma objetiva, utilizando tecnologia e raciocínio lógico, ressoou profundamente com suas habilidades e interesses.

Estudou intensamente e foi aprovada em várias instituições, optando pela residência em Radiologia na USP, em busca de ampliar seu networking e vivenciar uma estrutura hospitalar robusta.

A trajetória na residência: do aprendizado técnico à maturidade profissional

Dra. Sabrina descreveu com detalhes os desafios e aprendizados dos três anos de residência:

  • R1: foco em anatomia e ultrassonografia, enfrentando a clássica dificuldade de localizar estruturas complexas como o pâncreas.
  • R2: maior autonomia no pronto-socorro, realizando ultrassons e ganhando experiência prática.
  • R3: a fase mais desafiadora, assumindo responsabilidades importantes, como laudos em casos de trauma e cirurgias complexas, muitas vezes de forma solitária no plantão.

Ela compartilhou experiências marcantes, como um caso de tiro na medula, que exigiu decisões rápidas e impactantes. Ao mesmo tempo, destacou a importância do erro como parte do aprendizado, enfatizando que na Radiologia o erro mais comum ocorre por desatenção ou pelo chamado “erro de satisfação” — quando se encontra um achado e se negligencia a busca por outros.

A importância da mentoria e da formação contínua

Durante a residência, Sabrina contou com um programa de mentoria que considerou essencial para discutir questões profissionais e pessoais. Ressaltou, porém, a necessidade de um currículo mais estruturado com aulas teóricas regulares, pois atualmente muitas formações dependem exclusivamente da iniciativa individual e do estilo dos preceptores.

Ela defendeu que a formação médica precisa equilibrar informação e formação, destacando que ser um bom radiologista exige muito mais do que operar máquinas: exige compreensão clínica, responsabilidade e constante atualização.

A subespecialização em Medicina Interna e o contato internacional

Após concluir o R3, Sabrina optou pelo R4 em Medicina Interna, uma subespecialidade que envolve Radiologia Abdominal e Torácica. Essa escolha permitiu aprofundar seus conhecimentos em órgãos que ela considera fascinantes, como fígado e pâncreas.

Além disso, buscou uma experiência internacional: fez um observership na França, com a renomada especialista Valérie Vilgrain, e outro estágio na Espanha, em Valência. Essas vivências foram enriquecedoras, permitindo conhecer protocolos avançados e uma dinâmica multidisciplinar que ela considera inspiradora, como reuniões que incluem radiologistas, cirurgiões e pacientes na mesma consulta.

A prática profissional atual: excelência no Sírio-Libanês e no Grupo Fleury

Hoje, Dra. Sabrina atua como radiologista no Hospital Sírio-Libanês e no Grupo Fleury, dois centros de referência nacional e internacional. Ela valoriza a possibilidade de contribuir para diagnósticos complexos, mantendo contato com cirurgiões e aprendendo continuamente com a troca de experiências entre colegas.

Destacou a diferença entre o ambiente hospitalar e ambulatorial, apontando que o hospital proporciona um feedback mais rápido e direto dos casos, o que potencializa o aprendizado.

O impacto da Inteligência Artificial na Radiologia

Um tema central da conversa foi a crescente presença da Inteligência Artificial (IA) na Radiologia. Sabrina abordou com lucidez os benefícios e desafios desse avanço:

✅ Vantagens:

  • Ferramenta de dupla checagem que reduz erros;
  • Apoio na detecção de achados sutis, como fraturas ocultas.

⚠️ Desafios:

  • Não substitui o raciocínio clínico e a validação humana;
  • Pode gerar mudanças no mercado, como a redução do número de radiologistas contratados.

Sabrina foi enfática: “A IA não vai acabar com a Radiologia. Vai transformá-la.” Ela acredita que o radiologista do futuro será aquele que souber trabalhar com a IA, integrando suas potencialidades à prática clínica.

Recomendações para futuros radiologistas

Dra. Sabrina deixou conselhos valiosos para estudantes e médicos que pensam em seguir essa especialidade:

  • “Se especializem”: quanto mais domínio técnico e clínico, melhor.
  • “Não subestimem a importância da atualização contínua”: especialmente com as novas tecnologias.
  • “Considerem experiências internacionais”: ampliam a visão de mundo e oferecem acesso a diferentes práticas.
  • “Lembrem que ser médico vai além do contato físico”: todas as especialidades contribuem com sua expertise para cuidar das pessoas.

O episódio 8 do Entre Neurônios com a Dra. Sabrina de Mello Ando é um verdadeiro manual para quem deseja entender não só a Radiologia, mas também o impacto das escolhas, da coragem de mudar e da busca pelo equilíbrio entre técnica e humanidade.

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Com participação da psicanalista Dra. Karin Posegger e dos estudantes Paulo e Arthur

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