Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
Vivemos uma era fascinante da medicina. Cirurgias robóticas, procedimentos minimamente invasivos, diagnósticos por inteligência artificial, imagens de alta resolução em tempo real, tudo isso já faz parte do nosso dia a dia nos centros cirúrgicos e ambulatórios. E é inegável: a tecnologia salvou, salva e continuará salvando inúmeras vidas.
Mas, como em qualquer área, a tecnologia pode falhar. E quando isso acontece, não é um robô, um software ou um equipamento que vai sustentar a vida do paciente, é o médico. É aí que entra a importância de dominar as técnicas clássicas, aquelas que muitos consideram “do passado”, mas que podem ser a diferença entre a vida e a morte.
Um dia no centro cirúrgico que virou aula sobre humildade e preparo
No episódio que motivou essa reflexão, estávamos em uma cirurgia de emergência. Tudo preparado: equipe posicionada, paciente em estado grave, cada segundo valendo ouro. O plano era seguir o protocolo moderno — rápido, eficiente, menos traumático. Mas, no momento crucial, o craniótomo elétrico simplesmente parou.
Tentativas de reconectar cabos, checar o pedal, trocar conexões… nada funcionava. O paciente, em estado crítico, não podia esperar. Foi então que recorremos ao velho trépano manual e à serra de Gigli, instrumentos que muitos alunos nunca viram fora de um museu de medicina. O processo foi mais demorado, mais traumático e, sim, mais sangrento. Mas funcionou.
Terminamos a cirurgia com sucesso. O craniótomo? Só voltou da manutenção dois dias depois.
O conflito entre o novo e o velho
Esse caso ilustra um dilema que todo médico moderno enfrenta: como conciliar o domínio da tecnologia de ponta com a necessidade de manter vivas as habilidades manuais e clínicas que sustentaram a medicina por séculos.
O avanço tecnológico é maravilhoso — mas, justamente por ele estar tão presente, existe um risco silencioso: o desaprendizado das técnicas tradicionais. Alunos que começam a prática já com apoio de equipamentos modernos, sem nunca precisar improvisar, tendem a se sentir inseguros quando a tecnologia não está disponível.
E essa realidade não se limita à neurocirurgia. O mesmo vale para a cirurgia geral, onde quem domina a laparoscopia ainda precisa saber converter para o método aberto; para a clínica médica, onde o exame físico apurado pode substituir a falta momentânea de exames de imagem; e até para áreas fora da medicina, como a aviação, que já sofreu tragédias quando tripulações não souberam manter a aeronave em voo sem instrumentos eletrônicos.
O que a velha guarda ensina (e que a nova não pode esquecer)
Estar ao lado de profissionais mais experientes é uma verdadeira escola paralela. Eles carregam consigo não apenas conhecimento técnico, mas também raciocínios, estratégias e soluções que não se encontram em livros ou artigos científicos.
Esses mestres nos mostram que o diagnóstico muitas vezes começa no olhar, no toque, no raciocínio clínico. Que procedimentos aparentemente ultrapassados podem ser cruciais. Que improvisar com segurança é tão importante quanto seguir protocolos.
Na cirurgia, essa sabedoria se traduz em não depender exclusivamente de equipamentos modernos. Na clínica, em não deixar que a facilidade de um exame de imagem substitua a acurácia de uma boa anamnese e exame físico. E na medicina como um todo, em entender que, no fim, o elo mais importante é o que liga médico e paciente.
Construindo o médico completo
Formar-se tecnicamente competente na era digital exige mais do que dominar novas ferramentas. É preciso também investir tempo em aprender os fundamentos. Isso não acontece apenas em aulas ou estágios formais — nasce da convivência com equipes, da observação de casos raros, do estudo constante e da disposição de ficar “além do horário” para ver como se resolve o improvável.
Ser médico é estar preparado para o que se espera… e para o que ninguém espera. É por isso que, quando a tecnologia falha, só o preparo humano pode preencher o vazio.
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