Quem decide quem é louco? 

Por Dr. Fábio Silva – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios

Desta vez, entramos em um terreno desconfortável: quem tem o direito de definir o que é normal e o que é patologicamente anormal? No episódio 22 do Entre Neurônios, com Arthur e Paulo, refletimos sobre as fronteiras nebulosas entre loucura, diagnóstico, sociedade e poder. Um tema sensível, polêmico e extremamente atual.

A pergunta que provocou a conversa foi simples: se você visse uma pessoa falando sozinha na rua, o que pensaria? E se, ao olhar com mais cuidado, percebesse que ela usa um fone de ouvido? A interpretação muda. E essa mudança é a chave do debate.

Historicamente, a medicina psiquiátrica serviu tanto para cuidar quanto para controlar. Muitas vezes, o que é visto como “loucura” é apenas uma expressão de dor, de diferença ou de resistência. E, por trás de cada laudo, existe um risco silencioso: o da rotulação injusta, do silenciamento, da exclusão travestida de tratamento.

No episódio, citamos casos de internações forçadas, abuso de medicações, diagnósticos baseados mais em comportamentos incômodos do que em critérios científicos. Questionamos a quem interessa o rótulo da insanidade. É para proteger o paciente ou para livrar a família de um incômodo? É para curar ou para controlar?

A linha entre a psiquiatria como ciência e como instrumento de poder é muito fina. E muitas vezes ultrapassada. Falamos sobre como algumas condutas ou maneiras de viver, que em outros contextos seriam apenas excentricidades, aqui são tratadas como sintoma. E essa patologização da diferença é perigosa.

Mas não se trata de negar o sofrimento real de quem vive com transtornos mentais. Pelo contrário: é reconhecer que esse sofrimento precisa ser compreendido com escuta, empatia e responsabilidade. E que os rótulos, se não forem manejados com critério, podem fazer mais mal do que bem.

Arthur e Paulo trouxeram contribuições valiosas, tanto do ponto de vista clínico quanto filosófico. Discutimos sobre diagnósticos que se tornaram “moda”, sobre o excesso de medicalização, e sobre como o ambiente social pode adoecer mais que o próprio corpo.

No fim das contas, a pergunta continua ecoando: quem decide quem é louco? A medicina? A família? O Estado? A própria pessoa? Não há resposta simples. Mas há a necessidade de mantermos o questionamento vivo.

🎙 Ouça agora o episódio completo:
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