Por Dr. Fábio Silva – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
No episódio 25 do Entre Neurônios, convidei os alunos Paulo e Arthur para uma conversa sincera sobre algo que raramente aparece nos livros: o que sente um cirurgião? Não estou falando apenas de emoções, mas de sentidos. Sim, os sentidos. Aqueles que, quando aguçados, transformam o ato cirúrgico em algo que transcende a técnica.
A cirurgia é um campo onde o tempo é implacável e o erro custa caro. Ali, cada detalhe importa. A respiração do paciente que muda, o som sutil de uma pinça que caiu, o cheiro que não deveria estar ali. É como se nossos sentidos se tornassem sensores de um radar silencioso. Às vezes, percebo alterações antes mesmo de olhar os monitores. É a escuta ativa do que não é dito, como bem definiu o Paulo ao comentar: “O desafio é ouvir o que o paciente tenta esconder com um sorriso.”
A medicina, muitas vezes, nos ensina a confiar nos dados. Mas os dados não substituem a sensibilidade. E isso não se aprende com livros, mas com tempo de sala, suor, silêncios e, sim, com falhas. Como falei durante a gravação: “Todo cirurgião carrega uma cicatriz invisível. A marca de um erro que não sai com bisturi.”
Arthur trouxe uma perspectiva importante: “É mais difícil saber a hora de desinvadir o paciente do que a hora de invadir.” Essa é uma verdade profunda. Temos mania de acreditar que fazer mais é melhor. Que pedir mais exames, manter por mais tempo no hospital, investigar cada detalhe é sinônimo de zelo. Mas, muitas vezes, estamos expondo o paciente a riscos desnecessários. O New England Journal of Medicine publicou em 2023 que 23,6% dos pacientes internados sofrem algum evento adverso. E desses, quase 7% seriam evitáveis.
Quando conversamos sobre isso no episódio, lembramos que a segurança muitas vezes é uma ilusaão. Como disse Nassim Taleb: “A ilusão de segurança é mais perigosa que o risco real.” É justamente essa segurança teatral que nos afasta da escuta, da sensibilidade e da coragem de dizer “eu não sei”.
A formação do cirurgião é marcada por disciplina, mas também por uma certa rigidez emocional. Não somos ensinados a falar sobre o medo. Mas ele existe. E, paradoxalmente, é o medo bem administrado que salva vidas. Um cirurgião que não teme o que faz não entendeu ainda a profundidade do que carrega nas mãos.
Eu me lembrei, ao longo do episódio, de tantas madrugadas em que precisei decidir entre o certo tecnicamente e o certo humanamente. Entre o tempo do protocolo e o tempo do paciente. E essas decisões não se ensinam. Se compartilham.
Por isso, esse episódio é também um convite: a todos que operam, que treinam, que aprendem, que acompanham. Não despreze seus sentidos. Não ignore o incômodo. Não silencie a intuição. Porque, no fim das contas, salvar uma vida é também escutar o que ninguém disse.
🎙 Assista agora ao episódio completo do Entre Neurônios:
Spotify: https://open.spotify.com/episode/3BWoiPp2fXi2fOtTR03xvM?si=4c6cd79c921a4bbd
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