Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
O episódio 29 do Entre Neurônios foi, sem dúvida, um marco nas discussões sobre saúde metabólica. Ao lado da Dra. Maíra Soliani — anestesista, doutora em Ciências Cirúrgicas pela Unicamp e autora do livro A Ciência do Desconforto — mergulhamos profundamente nos mitos, benefícios e nuances do jejum intermitente. E o resultado foi uma aula densa, provocadora e, acima de tudo, transformadora.
Quando a privação se torna ferramenta
Por décadas, fomos doutrinados pela ideia de que “ficar sem comer faz mal”, que “o cérebro precisa de glicose o tempo todo” e que “comer de três em três horas acelera o metabolismo”. Eu mesmo, anestesista e cirurgião formado por instituições tradicionais, fui moldado por esse pensamento. Só que a ciência não é estática — e o jejum, que parecia um sacrilégio, hoje se apresenta como uma potente ferramenta terapêutica.
Como bem pontuou a Dra. Maíra:
“O jejum é uma das formas mais antigas e fisiológicas de cuidar da saúde. O problema é que, na modernidade, trocamos a escassez natural pela fartura constante, e perdemos nossa flexibilidade metabólica.”
Flexibilidade metabólica: a chave oculta da saúde
Nosso corpo foi moldado para funcionar em ciclos: fartura e escassez, atividade e repouso, luz e escuridão. A quebra desse ciclo — com excesso de estímulos, alimentos processados e sono ruim — tem gerado um colapso silencioso. Hipertensão, diabetes tipo 2, obesidade, resistência à insulina. Estamos inflamados, viciados e confusos.
O jejum não é uma dieta. É um estado fisiológico. Dormir já é um período de jejum. E quando prolongado de forma estratégica, pode levar o corpo a usar a gordura como fonte primária de energia, desinflamar, estimular a autofagia celular e melhorar a performance cognitiva.
Quebrando mitos com ciência
Dentre os pontos mais impactantes discutidos no episódio, destaco:
- Jejum de 12h é o mínimo saudável para todos. Ele permite uma regeneração metabólica noturna. Comer até tarde interfere negativamente no sono, na digestão e na saúde hormonal.
- Nem todo mundo precisa jejuar 20 horas. O jejum não é uma prova de resistência. É uma ferramenta com dosagem e adaptação. Cada metabolismo tem um ponto ideal.
- Exercício em jejum não é catabólico. Para a maioria dos não-atletas, treinar em jejum é seguro e até benéfico. Inclusive, muitos pacientes da Dra. Maíra relatam maior foco e disposição.
- Jejum e pizza? Ainda é melhor do que pizza o dia inteiro. Comer mal em menos horas não é o ideal, mas já é um começo para aliviar o sistema digestivo e permitir pausas metabólicas.
Da teoria à prática: como começar
A transição para uma rotina de jejum saudável exige consciência e adaptação. Cortar lanchinhos entre refeições, antecipar o jantar ou atrasar o café da manhã são os primeiros passos. Depois, pode-se evoluir para protocolos como o 16:8, jejuns de 24 horas semanais ou, sob supervisão, jejuns prolongados.
“Você dá conta. É um desconforto temporário. Seu corpo só precisa lembrar como queima gordura,” explica a Dra. Maíra, que usa metáforas acessíveis como a da “ferrugem metabólica”.
Ela também destaca que boa hidratação e consumo de eletrólitos (sódio, magnésio) são importantes aliados para minimizar os efeitos colaterais iniciais.
Um livro para guiar essa revolução
O episódio também abordou o livro da convidada, A Ciência do Desconforto, uma leitura essencial para quem quer entender os fundamentos do jejum, do metabolismo e da saúde mitocondrial. Escrito com linguagem acessível, o livro propõe uma reeducação da percepção de esforço, da fome e da saúde.
“Jejum não é sobre passar fome. É sobre ensinar o corpo a funcionar como ele foi projetado para funcionar.” — Dra. Maíra Soliani
Para quem quer começar com segurança
Além de atendimentos presenciais e online, a Dra. Maíra desenvolveu dois cursos sobre jejum:
- Start do Jejum: ideal para quem ainda come de 3 em 3 horas e quer iniciar de forma segura.
- Reset do Jejum: um programa completo, com suporte de inteligência artificial, comunidade e jejuns em grupo guiados, como os de 48h e 72h.
Ambos estão disponíveis através do perfil da médica no Instagram: @dra.mairasoliani
Uma conversa que precisa ser ouvida
Este episódio me lembrou que a medicina deve ser humilde. Devemos estar abertos ao novo, questionar o estabelecido e, acima de tudo, cuidar da saúde antes que a doença se instale. O jejum não é uma panaceia, mas é uma potente ferramenta de prevenção, longevidade e autonomia.
🎙️ Assista agora ao episódio completo:
YouTube: https://youtu.be/HGGGWW2pkpU?si=FK7iFMRbOvaImV6_
Spotify: https://open.spotify.com/episode/5czuNOfqNDbowWPH5oYcHk?si=ddbdbda351f64b65
e descubra como o jejum pode mudar sua relação com o corpo, com a mente e com a medicina.
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