Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
A medicina moderna é guiada por dados, diagnósticos e evidências. Mas há uma dimensão do cuidado que permanece, muitas vezes, esquecida, não por falta de importância, mas por medo, preconceito ou ignorância: a espiritualidade. E foi justamente para iluminar esse espaço tão sensível e necessário que convidamos a Dra. Juliana Megale para o episódio 14 do Entre Neurônios.
Psiquiatra pela Santa Casa de SP, professora universitária, pesquisadora da relação entre espiritualidade e saúde mental, mestre pelo PROSER-HC-USP e membro da ABP, Juliana nos trouxe uma conversa densa, técnica e humana sobre como a espiritualidade pode, e deve, fazer parte da prática médica.
Durante o episódio, discutimos um dado alarmante: mesmo em cursos de medicina avançados, como o da UNIVAS, muitos alunos nunca tiveram uma aula formal sobre espiritualidade. E isso não é exceção, é regra. A formação médica brasileira praticamente ignora esse aspecto da experiência humana, como se fé, transcendência e sentido não atravessassem diagnósticos e tratamentos.
Juliana nos mostrou que espiritualidade não é o mesmo que religião. Pode envolver fé, sim, mas vai além disso: trata-se de uma busca por propósito, conexão, valores. E ignorar essa dimensão, especialmente em pacientes graves, terminais ou cronicamente doentes, é deixar de enxergar o ser humano por completo.
Paulo e Arthur, nossos alunos anfitriões, relataram a ausência desse tema em suas grades curriculares. E refletimos juntos sobre o impacto disso: como oferecer um cuidado verdadeiramente integral se o médico não sabe, não entende ou não se sente à vontade para lidar com questões espirituais? Como ouvir um paciente em sofrimento se a linguagem dele passa pela fé, e nós não temos repertório para acolher?
A Dra. Juliana trouxe referências da literatura científica mostrando que a espiritualidade impacta positivamente indicadores de saúde mental, adesão ao tratamento e até o prognóstico em doenças graves. Mas ela também fez um alerta: o médico não precisa ter respostas espirituais, ele precisa, antes de tudo, saber perguntar, escutar, acolher.
O mais poderoso, para mim, foi o convite que ela fez a todos nós: refletir sobre a nossa própria espiritualidade como médicos. Porque, mais cedo ou mais tarde, a dor do outro vai bater na porta da nossa interioridade. E se não estivermos minimamente conscientes de quem somos, do que acreditamos, daquilo que nos sustenta… o cuidado pode virar rotina vazia, e o esgotamento será inevitável.
Esse episódio foi mais que uma entrevista, foi um chamado. Para uma medicina mais humana, mais profunda, mais conectada com a essência da vida.
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