Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
Existe um tipo de tensão que nem sempre aparece nos prontuários ou nos manuais de medicina: a tensão relacional. Aquela que se instala quando, além da doença, o médico precisa lidar com o desgaste emocional, os conflitos e até mesmo o confronto com o paciente ou com a família. Esse foi o foco do episódio 7 do Entre Neurônios, que eu chamei de “Médico em campo minado” porque é exatamente essa a sensação em muitos atendimentos: cada frase pode ser um gatilho, cada silêncio pode ser mal interpretado, e qualquer passo em falso pode virar um problema ético, emocional ou até jurídico.
Na conversa com a psicanalista Dra. Karin Posegger e os estudantes Arthur e Paulo, revisitamos uma realidade dura: há atendimentos em que a maior dificuldade não é o diagnóstico ou o tratamento, mas sim a dinâmica conflituosa com quem está do outro lado da mesa.
Muitas vezes, o paciente já chega em sofrimento e com resistência. A família, por sua vez, está ansiosa, fragilizada, por vezes agressiva. Há desconfiança, exigências desproporcionais, projeções emocionais pesadas sobre o médico. E no meio de tudo isso, estamos nós tentando exercer a medicina com técnica, ética e, ainda assim, humanidade.
Uma das falas mais potentes do episódio veio da Dra. Karin: “Muitos médicos adoecem porque a comunicação virou campo de guerra”. E é verdade. Há um medo crescente de dar más notícias, de ser mal interpretado, de ser acusado de negligência quando, na verdade, houve apenas frustração diante de uma expectativa impossível.
Arthur e Paulo compartilharam a angústia dos primeiros contatos com pacientes difíceis: a sensação de pisar em ovos, a culpa por não conseguir agradar, o receio de errar no tom ou no tempo da fala. Eles representam toda uma geração de futuros médicos que já entra na prática clínica carregando essa carga invisível.
O médico hoje não lida apenas com exames e condutas. Ele lida com frustrações projetadas, expectativas irreais e, muitas vezes, com comportamentos hostis que não têm a ver com ele, mas que o atingem em cheio. Essa sobrecarga emocional silenciosa é pouco discutida mas é extremamente danosa. Porque ela mina a empatia, deteriora o vínculo e transforma o consultório em um ambiente defensivo, não terapêutico.
Como lidar com o “campo minado”?
Durante o episódio, discutimos caminhos possíveis.
Karin sugeriu o fortalecimento de habilidades socioemocionais desde a formação médica. A escuta empática, a comunicação não violenta, o manejo de conflitos, tudo isso precisa ser ensinado, treinado e valorizado. Eu defendi a criação de espaços de escuta e apoio ao médico. Supervisionar casos difíceis, conversar com colegas, ter mentores. Porque não é justo que o médico tenha que lidar sozinho com toda essa pressão.
Esse episódio me fez pensar no quanto a medicina moderna precisa reaprender a dialogar. Dialogar com o paciente, sim. Mas também com a dor dele. Com a angústia da família. Com os limites da própria medicina. Nem sempre seremos os heróis. Muitas vezes, seremos apenas os portadores de verdades duras. Mas podemos ser isso com firmeza e acolhimento. Porque no final das contas, a relação médico-paciente não é sobre controle. É sobre confiança.
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