Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
No episódio 27 do Entre Neurônios, me reuni novamente com Arthur e Paulo para uma conversa fundamental: o que cura o médico? Em um universo em que somos formados para resolver, aliviar e intervir na dor do outro, quase nunca somos convidados a olhar para as nossas próprias dores. E, talvez, esse seja o maior erro da formação médica moderna.
O médico que cuida, mas não é cuidado
Durante a conversa, ficou evidente o quanto a estrutura da medicina é silenciosamente hostil ao bem-estar do próprio profissional. Em nossas falas, reconhecemos algo que já sentimos na pele — a lógica que empurra o médico a adiar seu descanso, minimizar seus sintomas, esconder suas angústias. “Depois eu vejo isso” vira mantra. Só que esse depois, muitas vezes, nunca chega.
Arthur trouxe à tona a seguinte reflexão: “A gente aprende tanto a ouvir o outro, mas esquece de ouvir a si mesmo.” Essa fala sintetiza o que muitos vivem e poucos conseguem verbalizar. A escuta ativa, que é ferramenta clínica essencial, se torna ausente quando o paciente somos nós.
O corpo fala, mas o médico silencia
Compartilhei no episódio casos de colegas que adoeceram sem perceber. Síndrome de burnout, depressão, ansiedade mascarada por produtividade. O diagnóstico, quando chega, muitas vezes já vem tarde. Porque o médico, paradoxalmente, é treinado para suspeitar de tudo — menos de si.
Paulo complementou dizendo: “Existe um orgulho em ser o último a sair do hospital. Só que esse orgulho mata, mesmo que aos poucos.” Essa frase me impactou. Ela revela o quanto o culto à exaustão ainda é validado como virtude.
A British Medical Association publicou, em 2023, que 80% dos médicos relataram sintomas de exaustão mental e física, e 40% consideraram deixar a profissão nos últimos dois anos por problemas relacionados à saúde mental. Não é mais uma questão isolada. É uma epidemia entre cuidadores.
A receita que não vem no receituário
O cuidado com o médico precisa sair da teoria e entrar na prática. Falamos, ao longo do episódio, sobre estratégias de autocuidado que vão além do discurso genérico. Dormir o suficiente. Estabelecer limites claros. Manter vínculos fora da bolha hospitalar. Fazer terapia sem culpa. Reaprender o valor do ócio. Reaprender a respirar.
E é curioso como tudo isso, que prescrevemos com naturalidade para nossos pacientes, se torna quase proibido quando olhamos para nós. Como se o cuidado com o médico fosse luxo, quando na verdade deveria ser regra.
Citei no episódio uma frase de Carl Jung que gosto muito: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Essa é a base de tudo. O médico que se desumaniza em nome da técnica perde o próprio eixo do cuidar.
O médico saudável é parte do tratamento
A conversa com Arthur e Paulo me lembrou que o autocuidado não é egoísmo. É, na verdade, um ato ético. Um médico que reconhece os próprios limites tem mais chance de respeitar os limites dos outros. Um médico que se cuida se torna mais empático, mais real, mais seguro.
E é por isso que esse episódio não é sobre fraqueza. É sobre força. A força de parar, refletir, pedir ajuda e mudar. Porque, como diz o provérbio africano: “É preciso uma aldeia para cuidar de uma criança.” E é preciso uma rede para sustentar o médico.
Se você é médico, médica, estudante da saúde ou conhece alguém da área, compartilhe esse episódio. Que ele sirva de espelho, de colo, de alívio.
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