O risco invisível do hospital: quando a cura também ameaça

Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios

Hospitais foram feitos para salvar vidas. Mas e se eu te dissesse que estar internado em um hospital é, por si só, um risco? Essa foi a provocação que conduziu o episódio 18 do Entre Neurônios, onde conversei com o Arthur sobre um tema que incomoda, mas precisa ser discutido com urgência: o risco invisível da hospitalização.

No imaginário coletivo, o hospital é um lugar de segurança. Um porto seguro quando o corpo adoece. Mas os números e a experiência prática dizem o contrário: hospitais, ainda que necessários, são ambientes hostis. E não apenas pelas doenças que tratam, mas pelos efeitos colaterais que sua estrutura, rotina e cultura geram.

Infecções hospitalares, eventos adversos, erros de medicação, diagnósticos excessivos, intervenções desnecessárias, sobrecarga emocional, privação de sono, ambiente impessoal e até iatrogenias causadas por boas intenções. Tudo isso compõe o risco oculto de uma internação.

O episódio foi motivado por dados recentes do New England Journal of Medicine: 1 a cada 4 pacientes internados sofrerá algum tipo de evento adverso durante a hospitalização, e cerca de 6 a 8% desses eventos seriam evitáveis. E não estamos falando apenas de falhas técnicas: o ambiente em si já é danoso.

Arthur lembrou muito bem da arquitetura hospitalar: fria, prática, desumanizante. O paciente não sabe se é dia ou noite. Luzes acesas 24 horas, ruído constante, ausência de natureza, privacidade ou conforto. Isso desorganiza a percepção do tempo, aumenta o estresse e favorece quadros como o delirium. O hospital não foi feito para acolher, foi feito para funcionar. E isso tem um custo.

Falamos também sobre a cultura do overdiagnosis e overtreatment. O excesso de exames e de condutas é muitas vezes motivado por insegurança médica, pressão institucional ou expectativas dos próprios pacientes, que confundem investigação com qualidade. E nesse excesso, surgem achados irrelevantes, falsas suspeitas e tratamentos desnecessários que podem custar caro.

Trouxe o exemplo de um paciente que estava prestes a operar um tumor cerebral, mas foi submetido a um preparo agressivo para uma colonoscopia por conta de um achado paralelo. Resultado? Desidratação severa, piora do estado geral e adiamento da cirurgia principal. Um caso entre milhares.

Não se trata de demonizar o hospital. Pelo contrário. Sou médico, cirurgião, e sei o quanto o hospital salva vidas. Mas é preciso reconhecer que ele também pode adoecer. E que o nosso papel não é apenas tratar, mas proteger o paciente de danos evitáveis, inclusive daqueles que vêm do próprio sistema.

Arthur trouxe um ponto sensível: o impacto das palavras no ambiente hospitalar. Um comentário irônico, uma analogia mal feita, uma explicação vaga, tudo isso pode gerar sofrimento psíquico real. Pacientes interpretam tudo. E muitas vezes, o que era uma piada para o médico vira insônia, medo e insegurança para o paciente.

É mais difícil desinvadir do que invadir. Mais difícil dar alta do que manter internado. Mais difícil dizer “já chega” do que seguir investigando. Mas é exatamente aí que mora a sabedoria médica: saber parar. Saber proteger. Saber respeitar o tempo do corpo e o limite do cuidado.

Como sempre digo aos meus alunos: a pergunta mais importante na enfermaria é, por que esse paciente ainda está internado? Se não há mais motivo clínico, ele deve ir para casa. Quanto mais tempo no hospital, maior o risco. O hospital não é hotel. É campo de batalha. E cada dia a mais expõe o paciente a novos perigos.

Esse episódio não é um ataque à medicina, é um apelo por mais prudência, mais ética, mais humanidade. Precisamos repensar nossos protocolos, revisar nossas rotinas e lembrar, todos os dias, que menos pode ser mais. Que curar não é apenas intervir, mas também evitar o dano.

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