Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
A medicina sempre carregou consigo um peso simbólico: a ideia do sacerdócio, da entrega incondicional, da vocação. No entanto, como mostrou a brilhante entrevista com o Dr. Diego Adão, há uma tensão cada vez mais clara entre essa visão tradicional e a realidade do mercado. Médicos são formados para servir, mas na prática, são forçados a vender, e esse choque gera angústia, frustração e, muitas vezes, abandono de caminhos que não se alinham ao “etos” de cada profissional.
O Caminho Errático até o Propósito
A trajetória do Dr. Diego ilustra bem o conflito. Entre a inspiração de professores-modelo e a tentativa de espelhar carreiras que admirava, ele trilhou residências, fellowships e consultórios particulares. Mas foi no pronto-socorro, na emergência, que encontrou seu verdadeiro etos: o ambiente onde sua vocação floresce.
Essa busca não foi linear. Houve crises, rupturas, mudanças financeiras drásticas e, sobretudo, o reconhecimento de que a prática médica não se resume ao ato técnico, mas ao encontro entre sofrimento humano e cuidado genuíno.
O Valor Incalculável da Vida
O ponto central do dilema está na precificação da saúde. Como colocar preço em uma cirurgia que salva vidas? Como comparar um tratamento oncológico a um bem de consumo? Enquanto a estética pode se negociar, a dor, a morte e o sofrimento humano não admitem barganha.
Ao aceitar as regras do mercado, o médico corre o risco de abandonar o juramento de Hipócrates e se submeter ao código de defesa do consumidor, transformando uma relação sagrada em mera transação.
A Ascensão dos Sofistas da Medicina
Outro ponto levantado foi o impacto das redes sociais e do marketing agressivo. Hoje, quem aparece mais agrega mais valor. Médicos recém-formados, muitas vezes sem experiência clínica sólida, constroem impérios digitais e atraem pacientes em massa, enquanto profissionais altamente capacitados permanecem à sombra.
A analogia com Platão é perfeita: sofistas com retórica e espetáculo seduzem multidões, enquanto os verdadeiros filósofos, aqueles que carregam profundidade, ciência e ética, permanecem em minoria, resistindo silenciosamente.
A Formação Médica em Crise
Se a prática deveria ser o centro da formação, o modelo atual muitas vezes inverte a lógica: anos de teoria desvinculada da realidade, pouco contato precoce com pacientes e ausência quase total de preparo para lidar com o mercado.
Como bem apontado, a medicina é uma ciência prática. Aprende-se medicina na beira do leito, diante da dor real, e não apenas nas páginas de um manual técnico. E é nesse ponto que tutores, mentores e modelos profissionais se tornam fundamentais para moldar a identidade médica.
Caminho Solitário e Rede de Apoio
O médico que busca ser referência ética e científica inevitavelmente enfrentará uma jornada solitária. Como no mito da caverna de Platão, poucos sairão da escuridão da ilusão; muitos preferirão permanecer confortáveis nas sombras.
Ainda assim, é possível formar redes de apoio, de profissionais que compartilham os mesmos valores, e oferecer à sociedade uma alternativa à mercantilização pura da saúde.
O dilema não tem solução simples. A medicina sempre oscilará entre dois polos: o da vocação altruísta e o da necessidade de sobrevivência no mercado. O desafio é encontrar um equilíbrio possível, sem vulgarizar a profissão, sem abandonar o sacerdócio, mas também sem negar a realidade econômica que sustenta a vida do médico.
No fim, como lembrou o Dr. Diego, talvez o segredo esteja em manter o foco no propósito maior: servir ao próximo com dignidade, construindo uma carreira que seja ao mesmo tempo sustentável e fiel ao juramento que une médico e paciente.
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