Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
A medicina é feita de protocolos, rotinas, exames e decisões técnicas. Mas existem dias em que tudo isso parece insuficiente. Existem casos que não cabem em manuais. Existem histórias que suspendem o tempo e foi uma dessas que parou o hospital onde eu trabalho. Esse é o tema do episódio 11 do Entre Neurônios, onde compartilho, com peso e responsabilidade, um dos episódios mais impactantes da minha trajetória médica.
Uma jovem entre a vida e a morte
Tudo começou com uma ligação urgente da emergência: uma paciente jovem, em estado gravíssimo, foi trazida ao hospital. Sem documentos, sem acompanhante, apenas com um nome dito por terceiros. O diagnóstico era complexo, mas o quadro clínico era ainda mais urgente. O tipo de situação que exige respostas imediatas e, ao mesmo tempo, nos coloca diante de dilemas morais e humanos profundos.
Enquanto os exames apontavam para uma condição neurológica devastadora, a UTI se mobilizava para estabilizar a paciente. O tempo era nosso inimigo. Cada minuto sem resposta aumentava o risco de morte ou de sequelas irreversíveis.
Em meio ao desespero técnico e emocional da equipe, surgiu uma dúvida que parecia filosófica, mas era, acima de tudo, prática: estamos diante de uma paciente que tem chance de recuperação ou estamos prolongando um sofrimento inevitável?
Essa pergunta que a medicina moderna tenta responder com exames, escalas e protocolos ganhou um peso insustentável naquele plantão. Porque a paciente era jovem. Porque ninguém a conhecia. Porque ninguém falava por ela. E porque, em algum momento, todo o hospital estava atento àquela história. Era como se ela representasse algo maior: a fragilidade da vida, os limites da ciência, o papel do médico como ponte entre dois mundos.
Enquanto neurologistas, intensivistas, clínicos e residentes avaliavam o caso, as opiniões divergiam. Havia exames que indicavam morte encefálica. Havia sinais que pareciam contradizer essa hipótese. O eletroencefalograma mostrava ausência de atividade. Mas o coração insistia em bater. E, diante disso, vieram as discussões: devemos iniciar o protocolo de morte encefálica? Há espaço para mais exames? Há espaço para esperança?
Eu vi colegas chorando. Vi profissionais experientes em silêncio. Vi o peso de uma decisão que não era apenas técnica, mas existencial. E, naquele momento, ficou claro para mim: a medicina exige, cada vez mais, coragem emocional. Coragem para sustentar a dúvida. Coragem para enfrentar o julgamento. Coragem para dizer “não sabemos” quando o mais fácil seria protocolar o fim.
A medicina não é um script
Gravar esse episódio foi um desafio. Não pela complexidade clínica do caso, mas pela densidade emocional de reviver cada etapa, cada expressão da equipe, cada silêncio da família que chegou depois. Porque o que esse caso nos mostrou é que, por mais que a medicina evolua tecnologicamente, ela continuará lidando com o imponderável.
Existe uma linha muito tênue entre persistência terapêutica e obstinação. Entre empatia e culpa. Entre a medicina que salva e a medicina que precisa saber parar. E é exatamente nessa linha que se constrói a verdadeira ética médica: não na certeza, mas na escuta. Não na rapidez, mas na prudência.
A paciente não sobreviveu. Mas ela deixou algo. Deixou uma marca indelével em todos que participaram daquele cuidado. E nos deixou uma lição: o hospital pode ter vários protocolos, mas é nas exceções que a humanidade da medicina se revela.
Esse episódio é uma homenagem a todos os profissionais que enfrentam, diariamente, situações-limite. Que tomam decisões difíceis com consciência, empatia e responsabilidade. E que, mesmo diante do fim, escolhem agir com dignidade.
Se você já viveu um caso que te tirou o chão, que te obrigou a parar, pensar e sentir esse conteúdo é para você!
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