Radiologia além da imagem: a jornada da Dra. Sabrina de Mello Ando

Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios

A medicina é feita de escolhas. Escolhas que, muitas vezes, nos empurram para caminhos imprevistos. E foi justamente essa a sensação ao conversar com a Dra. Sabrina de Mello Ando no episódio 10 do Entre Neurônios. Médica formada pela EPM-UNIFESP, ela seguiu uma trajetória que a levou ao ápice da Radiologia nacional, com atuações no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), Hospital Sírio-Libanês e Grupo Fleury.

Mas por trás de cada título, existe uma história de desistência, dúvida, coragem e, principalmente, de reencontro com a própria essência.

Quando o sonho não encaixa: o ponto de ruptura

Sabrina começou sua jornada na medicina motivada por um interesse genuíno pela mente humana. Pensava em ser psiquiatra. Mas como acontece com muitos de nós, a prática desconstrói as certezas teóricas. Ela ingressou na residência de Clínica Médica, mas logo percebeu que aquela não era sua praia.

Ela se descreve como uma pessoa introspectiva, metódica e analítica. E o ritmo frenético do pronto-socorro não dialogava com seu jeito de ser. Aos três meses, decidiu sair. O que poderia parecer um fracasso foi, na verdade, um ato de coragem. “Foi a decisão mais difícil da minha vida até ali”, disse. E eu entendi. Porque em um meio que valoriza resiliência quase acima de tudo, parar é um tabu. Mas parar, no caso da Sabrina, foi um recomeço.

Foi no silêncio das imagens que ela reencontrou sua voz. A Radiologia apareceu como possibilidade e logo se tornou paixão. Estudou intensamente, prestou diversas provas e conquistou uma vaga na residência da USP.

A transição foi mais que profissional. Foi pessoal. A lógica clínica, a observação meticulosa, o poder de resolver sem o ruído do contato direto – tudo isso fez sentido. Mas engana-se quem acha que a Radiologia é fria ou distante. Sabrina mostrou o contrário: ela vive intensamente cada laudo, cada caso. E é ali, no detalhe de uma tomografia ou de uma ressonância, que ela exerce sua maior potência.

Durante nossa conversa, revisitei com ela cada fase da residência. O R1, dominado por anatomia e ultrassonografia. O R2, marcado pela autonomia no pronto-socorro. E o R3, com plantões que exigem decisões rápidas e solitárias, às vezes com vidas em jogo.

Ela contou o caso de um paciente baleado na medula, em que precisou confiar no próprio julgamento. A medicina, nesse momento, se torna solitária. E foi tocante ouvi-la falar da responsabilidade e da maturidade que se exige de um residente que ainda está em formação.

Uma crítica construtiva feita pela Sabrina e que eu compartilho, é sobre a ausência de estrutura emocional na residência. A carga técnica é altíssima, mas o suporte humano é escasso. Ela sentiu falta de aulas teóricas regulares, de mentores dispostos a discutir erros e angústias. E quando teve acesso a um programa de mentoria, percebeu o impacto disso em sua formação.

Essa fala ressoou profundamente em mim. Quantos colegas já não desabaram em silêncio porque não tinham com quem dividir suas inseguranças?

Radiologia e Inteligência Artificial: ameaça ou aliada?

Outro ponto de destaque do episódio foi a discussão sobre Inteligência Artificial (IA). Sabrina enxerga a IA como uma ferramenta poderosa, especialmente na detecção de achados sutis e como dupla checagem de laudos. Mas deixa claro: “A IA não substitui o raciocínio clínico”.

Ela defende uma integração harmoniosa. O radiologista do futuro será aquele que souber utilizar a tecnologia sem abrir mão da sensibilidade médica. Porque por trás de cada imagem há uma história. E é papel do médico interpretar mais do que pixels, interpretar contextos, sinais, sinais clínicos e humanos.

Sabrina também compartilhou suas experiências no exterior. Fez estágios na França e na Espanha, onde teve contato com modelos multidisciplinares que reúnem radiologistas, cirurgiões e pacientes na mesma consulta.

Essa vivência trouxe um olhar mais horizontal para a medicina. E reforçou algo que debatemos muito neste podcast: a necessidade de diálogo entre especialidades e de valorização do radiologista como parte ativa da equipe, não apenas como suporte.

Ao final do episódio, fiquei com a sensação de que a história da Dra. Sabrina é o retrato da medicina possível. Uma medicina que acolhe perfis diferentes, que valoriza o recomeço, que respeita o silêncio e a análise profunda, mas que também exige coragem e posicionamento.

Ela é exemplo de que não existe um único modelo de ser médico. E que é possível ser excelente mesmo sem se encaixar no estereótipo do médico extrovertido, do herói incansável, do generalista onipresente.

Na verdade, talvez a excelência more justamente em saber quem se é. E seguir com coragem.

📺 Assista ao episódio completo com a Dra. Sabrina de Mello Ando no YouTube.


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