MEDICINA DO INTERIOR PARA O MUNDO

Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios

que alguém planejou isso para ele, mas porque a curiosidade tem essa propriedade: ela não para sozinha quando encontra um ambiente que não a sufoca.

Esse ponto me parece central. A medicina brasileira, de modo geral, não sabe o que fazer com o aluno curioso. Ela sabe o que fazer com o aluno aplicado, com o aluno disciplinado, com o aluno que estuda para prova. Mas o aluno que quer entender de onde vem a diretriz, por que o livro está desatualizado, como se produz o conhecimento que a faculdade distribui como verdade pronta, esse aluno muitas vezes fica sozinho.

O Davi ficou. E foi sozinho mesmo.

O QUE ELE CONSTRUIU SEM ESTRUTURA

O TCC do Davi não foi um trabalho de revisão de literatura. Foi uma pesquisa experimental: uma rede neural treinada para identificar, usando ondas de EEG, se uma pessoa estava realizando atividade cognitiva aritmética ou em estado de relaxamento. Pesquisa de inteligência artificial aplicada à neurociência, produzida por um estudante de medicina do interior do Maranhão com orientação de um engenheiro elétrico com doutorado no Japão que ele mesmo foi buscar.

Depois disso, entrou num grupo internacional de pesquisa em metanálise, a MB Comunidade, e passou a aprender estatística avançada, extração de dados e produção científica na prática, trabalho por trabalho, etapa por etapa.

O resultado foi dois congressos internacionais nos Estados Unidos.

No CNS, o maior congresso de neurocirurgia do mundo, em Los Angeles, apresentou um pôster sobre o uso de diversores de fluxo em procedimentos endovasculares. No AAN, o maior congresso de neurologia do mundo, apresentou oralmente um trabalho para uma banca composta por um chefe de Yale e uma chefe do Mount Sinai. Oito minutos de apresentação. Quatro de perguntas. Primeira apresentação oral da vida.

Ele brincou que era como ensinar o Papa a rezar a missa no Vaticano.

Mas foi lá. Fez. E cumpriu.

Isso não aconteceu por talento. Aconteceu porque ele parou a vida, montou o slide, enxugou o slide, corrigiu o inglês, treinou olhando para o espelho, planejou cada palavra. O sucesso não é espontâneo. Ele é construído, repetido e ensaiado.

O MERCADO QUE NÃO ACOMPANHOU A PRODUÇÃO

Existe uma contradição que precisamos encarar sem eufemismo.

O Brasil forma cada vez mais médicos. Abre cada vez mais faculdades. Coloca no mercado, a cada semestre, um volume crescente de profissionais que competem pelos mesmos plantões, nos mesmos hospitais, nas mesmas cidades que já estavam saturadas.

O resultado é o que qualquer lei econômica prevê. No interior do Maranhão, do Tocantins, e de boa parte do Brasil, um médico generalista recém-formado faz plantão de doze horas em sala de emergência, com ambulância chegando, com paciente crítico, com pressão real. por R$600. E quando vai sentar para negociar aumento, ouve que tem mais de um grupo querendo a vaga. E que o contrato segue como está.

Não precisa baixar o salário. Basta não aumentar. A inflação come o resto.

Esse cenário não é abstrato. É o cotidiano de milhares de médicos jovens no país. E é o pano de fundo que explica por que cada vez mais profissionais olham para fora, não por aventura, não por fuga, mas por uma conta que simplesmente não fecha aqui.

O QUE OS ESTADOS UNIDOS TÊM QUE O BRASIL NÃO CONSEGUE COPIAR

A comparação com o mercado americano que fizemos no episódio não foi para alimentar sonho. Foi para colocar números numa conversa que costuma ficar no vago.

Nos Estados Unidos, não existe o médico generalista como produto final de formação. Todo profissional é forçado a passar por residência. As universidades têm número controlado. Não existe abertura desenfreada de cursos sem fiscalização real de qualidade. O resultado é um mercado que não está inflacionado e que, por isso, não precisa se defender do próprio profissional.

Um clínico geral americano ganha em torno de US$180 mil a US$200 mil por ano. Um especialista, entre US$250 mil e US$450 mil. Um neurocirurgião ou ortopedista pode chegar a US$1 milhão. Multiplicados por cinco para converter em reais, esses números representam uma realidade que a maioria dos especialistas brasileiros não atinge nem somando todas as fontes de renda.

E além do salário, existe outra coisa que raramente se menciona: o médico americano tem direitos. Tem horário. Tem estrutura. Não é descartável.

Não estou dizendo que todo médico deve ir para os Estados Unidos. Estou dizendo que o contraste precisa ser nomeado, porque ele revela algo sobre o que aconteceu aqui e o que ainda pode ser mudado se houver vontade política para isso.

O QUE O DAVI ME FEZ PENSAR

Saí dessa conversa com algo que fica difícil de nomear com precisão.

Não foi admiração pelo currículo. Foi algo mais parecido com uma pergunta incômoda: quantos Davis existem no interior do Brasil que nunca chegam a lugar nenhum porque ninguém nota o broche, porque ninguém pergunta, porque ninguém oferece o próximo passo?

A trajetória dele foi construída por ele. Mas ela também foi construída por um conjunto de encontros, conexões e portas que se abriram no momento certo. A aula no laboratório. O estágio na USP. O congresso em Los Angeles. A apresentação em Nova York.

Cada uma dessas etapas dependeu de alguém que apostou, de um ambiente que não sufocou, de uma rede que se formou porque ele quis fazer parte dela.

O problema não é que o Davi seja exceção. O problema é que ele deveria ser regra. E não é porque o sistema que forma médicos no Brasil ainda confunde número com qualidade, acesso com formação, diploma com competência.

Enquanto isso não mudar, vão continuar existindo alunos de dezessete anos com broche do Sci-Hub no jaleco, esperando que alguém pergunte o que aquilo significa.

A diferença é que nem sempre vai ter alguém para perguntar.

Assista ao episódio completo no YouTube ou ouça no Spotify, os links estão abaixo.

YOUTUBE: https://youtu.be/aL5DycsqWPE

SPOTIFY: https://open.spotify.com/episode/4TyDzj6DFmW9sX4SM7hDhH?si=_jbFe82zTzGlfB29JkOEEA

Com participação de Davi Neves Coelho – @davinvco

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