Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
Existe uma frase que aparece com frequência na formação médica, especialmente em regiões onde a estrutura não é ideal: “quem faz o lugar é o aluno”.
Ela pode soar bonita quando dita de forma superficial. Mas, na prática, é uma frase pesada.
Porque ela significa que, muitas vezes, o estudante precisa compensar falhas que não deveriam depender dele. Precisa correr atrás do que a instituição não entrega. Precisa procurar professor, estágio, hospital, referência, oportunidade e caminho. Precisa amadurecer antes do tempo.
Na conversa com a Dra. Isabela Souza, no episódio 47 do Entre Neurônios, essa frase apareceu como eixo da trajetória dela.
Isabela nasceu em Estreito, no Maranhão. Sempre estudou em escola pública. Queria fazer medicina desde pequena, sem uma influência familiar clara, sem um médico em casa apontando esse caminho. Apenas queria.
Quando terminou o ensino médio, tentou medicina e não passou de primeira. Para muitos, isso seria uma frustração paralisante. Para ela, foi um ponto de virada.
Foi para Goiânia fazer cursinho, saiu da realidade conhecida do interior e encontrou um mundo diferente. Gente com outra base, outra preparação, outro ritmo. E ali entendeu que teria que estudar mais, insistir mais e se adaptar mais rápido.
Depois, entrou na medicina em Porto Nacional, no Tocantins, em uma faculdade que ainda tinha limitações estruturais. Faltava organização, faltava maturidade institucional, faltava muita coisa que deveria estar pronta para formar um médico.
Mas ela decidiu não esperar a estrutura ideal.
E talvez essa decisão explique boa parte do que veio depois.
O INTERIOR ENSINA, MAS TAMBÉM COBRA
Quem vem de regiões menores entende algo que muitas vezes passa despercebido em grandes centros.
O acesso é diferente.
A referência é diferente.
A estrutura é diferente.
A distância até uma oportunidade também é diferente.
Isso não significa que o aluno do interior tenha menos capacidade. Muitas vezes, significa justamente o contrário: ele precisa desenvolver uma força de adaptação que outros não precisam desenvolver tão cedo.
A Isabela conta que, ao chegar ao cursinho em Goiânia, percebeu lacunas que não tinha percebido antes. Coisas que para alguns colegas pareciam naturais, para ela eram novas. E isso exigiu mais horas de estudo, mais disciplina, mais biblioteca, mais esforço silencioso.
Esse tipo de choque pode derrubar ou pode formar.
No caso dela, formou.
Mas é preciso cuidado para não romantizar isso. O fato de alguém superar uma estrutura ruim não torna essa estrutura aceitável. O fato de um aluno conseguir vencer apesar das limitações não justifica que as limitações continuem existindo.
Esse é um ponto que me parece central na medicina brasileira.
Nós gostamos de celebrar exceções. O aluno que saiu do interior, venceu dificuldades, passou na residência, fez subespecialização, voltou para atuar na região. A história é bonita. Mas ela também denuncia um problema.
Quantos bons alunos não conseguem fazer esse mesmo caminho porque ninguém orienta, ninguém puxa, ninguém mostra a próxima etapa?
Quantas Isabelas ficam pelo caminho porque o sistema exige delas uma maturidade que ainda não tiveram tempo de construir?
A NEUROLOGIA COMEÇOU ANTES DA RESIDÊNCIA
Na faculdade, uma monitoria de anatomia abriu um caminho.
Depois veio a neuroanatomia.
A monitoria colocou Isabela mais perto dos professores, das ligas, das conversas que acontecem fora da sala de aula. E isso muda a formação de um aluno.
Nem sempre a escolha de uma especialidade nasce em um grande momento. Muitas vezes, nasce em pequenos contatos. Uma aula melhor dada. Um professor que estimula. Um estágio que mostra uma realidade diferente. Uma área que começa a fazer sentido antes mesmo de ser escolhida formalmente.
No caso dela, a neurologia foi se aproximando assim.
Ela mesma disse que a neurologia a escolheu.
Essa frase me chamou atenção porque ela resume algo que muitos médicos vivem. Nem sempre escolhemos a especialidade como quem escolhe uma opção em uma lista. Às vezes, vamos sendo atravessados por experiências até perceber que já estamos naquele caminho.
A neuroanatomia aproximou.
O internato confirmou.
A residência consolidou.
Mas entre uma coisa e outra houve deslocamento, insegurança, prova, trabalho, frustração e recomeço.
SÃO PAULO COMO CHOQUE DE REALIDADE
Um dos pontos mais importantes da trajetória da Isabela foi o internato no Hospital Santa Marcelina, em São Paulo.
Para alguém que saiu de Estreito, passou por Goiânia e estudou em Porto Nacional, chegar a um hospital grande da Zona Leste de São Paulo não é apenas uma mudança de endereço.
É uma mudança de escala.
Volume de pacientes, gravidade, fluxo, especialidades, residentes, preceptores, cobrança, protocolos, ritmo. Tudo muda.
Ela conta que, quando chegou ao Santa Marcelina, nem sabia exatamente o que era residência médica. Não havia residência em Porto Nacional no contexto em que ela estava. Mas, ao ver aquele ambiente, os residentes estudando, a estrutura funcionando e a medicina acontecendo em outro nível, algo ficou mais claro.
Ela queria aquilo.
Esse é o papel que bons cenários de prática podem ter na vida de um estudante. Eles mostram o que existe além do mínimo. Mostram que a medicina pode ser mais exigente, mais organizada, mais técnica e mais viva do que aquilo que o aluno conhecia até então.
Ao mesmo tempo, também mostram o tamanho da distância entre formações.
Um aluno que nunca viu residência funcionando precisa descobrir sozinho o que muitos estudantes de grandes centros aprendem por convivência. Isso cria desigualdade. Não necessariamente de capacidade, mas de exposição.
E exposição, na formação médica, muda tudo.
A CORAGEM DE DESISTIR DO CAMINHO ERRADO
A trajetória da Isabela não foi linear.
Ela tentou neurologia, não passou naquele primeiro momento e acabou ingressando na clínica médica. Já tinha pedido demissão dos empregos, já tinha reorganizado a vida, já tinha dado um passo importante.
Mas percebeu que não era aquilo.
Desistir, nesse contexto, não é simples. Existe custo financeiro, emocional, profissional e familiar. Existe o peso de explicar para os outros e para si mesma que aquele caminho, embora possível, não era o certo.
Ela usou uma frase muito boa durante a conversa: “sou uma medrosa com muita coragem”.
Isso define melhor a coragem do que muitas frases prontas.
Coragem não é ausência de medo. Coragem é seguir decidindo mesmo com medo. É não congelar diante da insegurança. É aceitar que o caminho certo pode exigir voltar algumas casas.
Isabela saiu da clínica médica, voltou aos plantões, reorganizou a rotina e estudou novamente para neurologia.
No final, passou em Marília, na Famema.
Esse ponto merece ser dito com clareza: não existe trajetória médica sólida sem algum grau de renúncia. Quem olha apenas o currículo final não vê os meses de incerteza, os plantões, as dúvidas, o cansaço e as decisões difíceis.
O diploma mostra uma parte.
A formação real mostra outra.
RESIDÊNCIA NÃO É SÓ TÍTULO
Quando falamos em residência médica, muita gente ainda pensa apenas em especialização.
Mas residência é mais do que isso.
É repetição. É hierarquia. É plantão. É erro corrigido. É paciente grave. É cobrança. É rotina. É responsabilidade progressiva. É aprender a fazer melhor porque alguém viu, corrigiu e exigiu de novo.
A Isabela relata que, em Marília, mesmo com limitações de estrutura em comparação com grandes centros como USP, Unifesp ou Santa Marcelina, havia algo essencial: volume de pacientes e prática bem feita.
Isso importa.
A residência não precisa ser perfeita para formar bem. Mas precisa ter serviço, supervisão, rotina, paciente, cobrança e responsabilidade. Sem isso, vira apenas passagem burocrática.
Na neurologia, essa formação é especialmente desafiadora. O residente precisa transitar por pronto-socorro, UTI, ambulatório, enfermaria, neuroimagem, exame neurológico, raciocínio topográfico, urgências neurológicas e acompanhamento longitudinal.
Não é uma especialidade de respostas rápidas.
A neurologia exige método.
Exige paciência.
Exige capacidade de localizar a lesão antes de nomear a doença.
E isso só se constrói com tempo.
A SUBESPECIALIZAÇÃO E O ENCONTRO COM A ESTRUTURA
Depois da neurologia, Isabela seguiu para a área neuromuscular na USP Ribeirão Preto.
Mais uma mudança.
Mais uma prova.
Mais um ambiente novo.
E ali ela teve outro choque: o choque de encontrar um serviço extremamente estruturado, onde as coisas funcionavam com organização, referência e profundidade.
Essa experiência é importante porque mostra o que a formação pode ser quando encontra um ambiente maduro.
Na área neuromuscular, o olhar se volta para nervos, músculos, raízes, junção neuromuscular, corno anterior da medula e doenças do sistema nervoso periférico. É uma área técnica, detalhada e muito dependente de exame clínico bem feito e exames complementares bem indicados.
Entre eles, a eletroneuromiografia.
Esse exame ajuda a avaliar quadros de fraqueza, formigamento, alteração de sensibilidade, neuropatias periféricas, síndrome do túnel do carpo, doenças do neurônio motor e miastenia gravis, entre outras condições.
Mas, mais do que saber pedir o exame, é preciso entender o que se está procurando.
E isso é um ponto que vale para toda a medicina.
Exame não substitui raciocínio.
Ele complementa.
Quando a formação é fraca, o médico pede exame para tentar encontrar uma resposta. Quando a formação é sólida, ele pede exame para confirmar, localizar, diferenciar ou refinar uma hipótese.
Essa diferença parece pequena, mas muda a qualidade do cuidado.
O RETORNO PARA UMA REGIÃO QUE AINDA PRECISA DE MUITO
Depois de circular por São Paulo, Marília, Ribeirão Preto e outros serviços, Isabela voltou para a região.
Imperatriz, Estreito, Araguaína, Balsas, toda essa região Tocantina ainda carrega carências importantes na saúde.
E o retorno de uma especialista com formação sólida tem impacto direto.
Mas também vem com contraste.
Quem se acostuma a serviços com protocolos, acesso a exames, fluxos estabelecidos e equipes bem distribuídas sente o peso de voltar para uma realidade onde até exames básicos podem demorar, onde o acesso à neurologia é difícil e onde o sistema ainda depende muito da capacidade de improviso dos profissionais.
Esse retorno é bonito, mas não é simples.
Existe uma diferença entre voltar por vínculo e voltar para enfrentar uma estrutura limitada. A família chama, a região chama, a origem chama. Mas a prática médica local também cobra.
E talvez esse seja um dos pontos mais importantes da conversa.
O Brasil precisa formar bons médicos fora dos grandes centros, mas também precisa criar condições para que esses médicos consigam trabalhar bem quando retornam.
Não basta celebrar o retorno.
É preciso estruturar o retorno.
Sem isso, o profissional volta, mas encontra um sistema que não acompanha sua formação.
O QUE A TRAJETÓRIA DA ISABELA ME FEZ PENSAR
A história da Dra. Isabela Souza não é apenas uma história de superação individual.
É uma história sobre formação médica no Brasil.
Sobre o aluno que sai de escola pública e precisa descobrir o tamanho do mundo fora do interior.
Sobre a faculdade que nem sempre entrega tudo, mas encontra alunos que se recusam a ficar parados.
Sobre professores que, em momentos decisivos, abrem uma porta.
Sobre hospitais que mudam a forma como o estudante enxerga a medicina.
Sobre a residência como experiência que amadurece, não apenas como título.
Sobre a coragem de desistir de um caminho quase certo para tentar de novo o caminho certo.
Sobre voltar para uma região que precisa de especialistas, mas ainda não oferece estrutura proporcional à complexidade do cuidado.
A medicina brasileira precisa olhar com mais seriedade para essas trajetórias.
Porque elas mostram que talento existe fora dos grandes centros. Disciplina existe fora dos grandes centros. Inteligência existe fora dos grandes centros. O que muitas vezes falta é acesso, orientação, estrutura e continuidade.
A Isabela fez o caminho.
Mas o fato de ela ter conseguido não deve nos fazer esquecer que o caminho ainda é difícil demais para muitos.
O interior pode formar bons médicos.
Pode revelar bons neurologistas.
Pode devolver profissionais importantes para sua própria região.
Mas, para isso, não pode depender apenas da coragem individual de cada aluno.
A medicina precisa de pessoas que façam o lugar.
Mas o lugar também precisa fazer sua parte.
Assista ao episódio completo no YouTube ou ouça no Spotify, os links estão abaixo.
YOUTUBE: https://youtu.be/zBilAN_bDuE
SPOTIFY: https://open.spotify.com/episode/2geyPd2vC6bB9yLkngYEyg?si=6ZdXXw2PTLC4k4P5IayMSw
Com participação da Dra. Isabela Souza – @draisabela.neuro
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