Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
Existe uma conversa que eu precisava ter no podcast há bastante tempo. Não sobre uma técnica cirúrgica, não sobre um diagnóstico raro, não sobre os bastidores da medicina de alta complexidade. Mas sobre o que acontece antes de tudo isso. Sobre o que acontece quando um estudante de medicina, no interior do país, olha para o mundo lá fora e decide que quer fazer parte dele.
A Marianna Azevedo de Castro tem vinte e poucos anos, está no oitavo período de medicina na Universidade Federal do Norte do Tocantins, em Araguaína, e está em Lausanne, na Suíça, realizando um observership num dos serviços de neurorreabilitação mais avançados da Europa. Sem edital institucional. Sem consultoria paga. Sem bolsa do governo.
Ela foi atrás.
E a história de como chegou lá diz muito mais sobre formação médica do que qualquer grade curricular consegue ensinar.
O QUE SIGNIFICA ESCOLHER A MEDICINA SEM ROMANTIZAR
Logo no início da nossa conversa, a Marianna trouxe algo que eu não esperava ouvir tão cedo, e com tanta clareza.
Ela não gosta da narrativa de medicina por amor.
Não porque seja cínica ou desinteressada. Mas porque entende que essa romantização, em algum momento, se vira contra quem a carrega. A medicina é uma profissão exigente, repetitiva em muitos aspectos, estruturada sobre protocolos, e atravessada por momentos em que o que vai te manter de pé não é o amor pelo paciente. É o método. É o compromisso com o que você escolheu. É a capacidade de continuar quando a motivação não aparece.
Ela também foi honesta sobre algo que poucos dizem em voz alta: a medicina ainda carrega um status social muito alto no Brasil, especialmente vindo de famílias que investem no estudo como caminho de transformação. Esse peso influencia escolhas. Reconhecer isso não é fraqueza. É maturidade.
O que a manteve em Araguaína, longe de Brasília, longe da família, nos primeiros meses difíceis, não foi amor. Foi decisão. Foi a clareza de que aquilo fazia sentido para ela, e de que o preço valia ser pago.
Essa distinção importa mais do que parece. Quem escolhe por amor abandona quando o amor diminui. Quem escolhe por decisão continua porque a escolha foi consciente.
O AMBIENTE QUE TE FORMA OU TE PARALISA
A Marianna passou um semestre afastada da Liga. Testou outras especialidades, outras ligas, outros ambientes. Voltou.
Quando voltou, a fusão da LUNA havia acontecido. E com ela, algo mudou. Não era mais ela tentando puxar sozinha um projeto que não ganhava tração. Era um grupo com energia real, com pessoas comprometidas, com produção acontecendo de verdade.
O efeito foi imediato.
Ela começou a aprender pesquisa de verdade. A entender metodologia. A construir conexões com colegas que até hoje a sustentam nos projetos. A perceber que seu tempo, a maior riqueza que qualquer estudante de medicina tem, estava sendo bem investido.
Existe algo que discuto muito com os alunos da Liga: o ambiente em que você está inserido não é neutro. Ele te forma ou te paralisa. Ele eleva o seu nível ou nivela por baixo. A escolha de com quem você estuda, trabalha e constrói é uma das mais estratégicas da carreira médica e a maioria das pessoas não trata como tal.
O resultado dessa escolha está em Lausanne agora.
O CAMINHO QUE ELA ABRIU SOZINHA
Quando decidiu tentar um estágio internacional, a Marianna foi atrás dos caminhos institucionais. IFMSA, DENEM, parcerias da própria UFNT. Um por um, fecharam.
O núcleo local da IFMSA estava inativo. O processo seletivo da DENEM penalizava universidades novas, que ainda não tinham histórico de intercâmbios e a UFNT, com poucos anos de existência, simplesmente não acumulava pontos suficientes para competir com UFRJ, UnB e UFMG. Consultorias privadas cobravam valores que não faziam sentido para o orçamento de quem não paga mensalidade, mas também não recebe bolsa suficiente.
Então ela foi por conta própria.
Cruzou editais com sites de hospitais. Pesquisou serviço por serviço. Encontrou o CHUV, em Lausanne. Descobriu o SUN, o Serviço Universitário de Neurorreabilitação. Leu sobre o Dr. Arsène Sokolov, um dos maiores pesquisadores mundiais em neurorreabilitação cognitiva. Montou um e-mail. Reuniu currículo Lattes, currículo europeu, comprovantes, certificado de inglês. Enviou para três serviços.
A Suíça respondeu.
Isso não foi sorte. Foi método. Foi a capacidade de transformar um obstáculo institucional em um problema de engenharia e resolver engenharia por engenharia.
O QUE A EUROPA TEM QUE O BRASIL AINDA NÃO CONSTRUIU
Dentro do SUN, a Marianna encontrou algo que não esperava.
Ela sabia o que era neurorreabilitação. Achava que entendia. Chegou lá e percebeu que estava diante de algo estruturalmente diferente do que conhecia.
No Brasil, neurorreabilitação ainda é, em grande parte, fisioterapia, acompanhamento neurológico espaçado, e um conjunto de ações paralelas que raramente se falam. No CHUV, o serviço é integrado de uma forma que ainda não conseguimos replicar aqui. Multidisciplinar de verdade. Com reuniões diárias entre equipes. Com protocolos que colocam o paciente no centro de um sistema que funciona, não de um conjunto de profissionais que trabalham sem se comunicar.
A observação dela foi direta: aqui não existe trabalho individual. São cinco reuniões por dia. Todo caso é discutido em grupo. Ninguém decide sozinho.
Esse modelo não é utopia europeia. É organização. E é o tipo de diferença que não se aprende em livro. Se aprende estando lá.
O BRASIL QUE NÃO FINANCIA O SEU PRÓPRIO FUTURO
Há um ponto que não posso deixar passar.
A Marianna chegou à Suíça porque o pai acreditou no projeto e bancou a experiência. Ela foi honesta sobre isso, e esse gesto tem um peso que merece reconhecimento. Mas o que essa honestidade também revela é o estado do nosso sistema: as oportunidades de desenvolvimento científico e de intercâmbio ainda se concentram em universidades antigas, em cidades maiores, em estados com mais recursos.
Universidades novas como a UFNT saem em desvantagem estrutural nos sistemas de pontuação que deveriam ser meritocráticos. Alunos que pesquisam, que publicam, que apresentam em congressos, que lideram ligas acadêmicas, perdem para critérios institucionais que não estão ao alcance deles, não por falta de mérito, mas por falta de histórico institucional que só se constrói com tempo.
Isso não é crítica à Marianna. É crítica a um modelo que ainda premia a origem antes de premiar o esforço.
A mensagem que ela trouxe de volta da Suíça, no entanto, vai além dessa crítica. Ela foi direta: as coisas são possíveis. Acreditar que é para o outro, para quem estudou em lugar melhor, para quem tem mais recursos, é o primeiro passo para não tentar. E não tentar garante exatamente o resultado que o medo antecipava.
O QUE ESSA CONVERSA ME FEZ PENSAR
Saí dessa conversa com uma sensação que poucos episódios me deixam.
Não foi sobre neurologia, não foi sobre a Suíça, não foi sobre as diferenças entre os sistemas de saúde. Foi sobre o que acontece quando um estudante decide não esperar que o sistema se organize em favor dele.
A Marianna é de uma universidade nova, numa cidade pequena, num estado que raramente aparece nos debates nacionais sobre formação médica. E está num serviço de excelência mundial fazendo exatamente o que qualquer estudante de medicina deveria ter o direito de fazer, aprender com os melhores.
Ela não chegou lá por acaso. Chegou porque construiu um ambiente de aprendizado que multiplicou suas possibilidades, porque não aceitou que obstáculos institucionais fossem o fim da conversa, e porque tomou uma decisão e foi até o fim dela.
Isso é formação. Não de técnica cirúrgica. De caráter profissional.
E esse tipo de formação não está em nenhuma grade curricular. Está nas escolhas que cada um faz dentro e fora da sala de aula.
Assista ao episódio completo no YouTube ou ouça no Spotify, os links estão abaixo.
YOUTUBE: https://youtu.be/6kLIBZJJzL4
SPOTIFY: https://open.spotify.com/episode/2RtPZld8Et3xnCOXcnh0Fr?si=6p_JXiB2RHyfoYSWlISqbw
Com participação de Marianna Azevedo de Castro – @marianna.azevedoc
Me acompanhe no Instagram @dr.fabioserra para mais reflexões sobre formação médica, neurocirurgia e os desafios reais de quem escolhe essa carreira.
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