Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
Existe um momento na formação médica em que a medicina deixa de ser uma ideia.
Ela deixa de ser aula, prova, conteúdo, protocolo, discussão de caso e passa a ser algo muito mais difícil de carregar: responsabilidade.
Foi isso que me veio à cabeça durante a conversa com o Dr. Jusciellyson da Silva Nava, ou simplesmente Dr. Nava, como agora posso chamá-lo.
Conheci o Nava ainda como estudante de medicina em Imperatriz. Ele se formou pelo UniCEUMA Campus Imperatriz em 2023.2 e hoje faz residência de Clínica Médica no Hospital Augusto de Oliveira Camargo, no interior de São Paulo.
Mas esse episódio não foi apenas sobre residência.
Foi sobre atravessar fases.
Sobre sair da posição de aluno e começar a entender, na prática, o peso de ser médico.
O ALUNO QUE NÃO ACEITAVA RESPOSTA PRONTA
Uma das coisas que mais me marcaram no Nava, ainda na graduação, foi a postura de questionar.
Ele não era o aluno que apenas recebia uma informação e repetia.
Ele processava.
Digeria.
Devolvia em forma de dúvida.
E isso, na medicina, faz muita diferença.
Porque existe um tipo de estudante que estuda para acertar prova. E existe outro que estuda porque realmente quer entender.
O Nava sempre me pareceu mais próximo do segundo grupo.
E talvez seja por isso que a trajetória dele faça tanto sentido hoje.
Porque a residência médica exige exatamente isso: curiosidade, desconforto, disciplina e capacidade de continuar pensando quando a resposta não está pronta.
O CHOQUE COM A MEDICINA REAL
Depois da graduação, Nava ficou um período atuando no interior do Maranhão.
E ali apareceu uma das partes mais duras da conversa.
A medicina real nem sempre permite que o médico faça aquilo que sabe que deveria ser feito.
Falta estrutura.
Falta medicação.
Falta equipamento.
Falta suporte.
E isso cria um tipo de sofrimento que pouca gente de fora entende.
Porque não é apenas a dificuldade técnica de atender um caso grave.
É saber o que precisa ser feito e não ter condições mínimas para fazer.
Em um momento da conversa, ele relatou situações que marcaram profundamente sua percepção da medicina. Pacientes graves. Recursos básicos ausentes. Sensação de impotência. A experiência de estar diante de uma vida dependendo de uma estrutura que não responde.
Isso muda um médico.
Ou deveria mudar.
Porque a medicina não acontece no ideal. Acontece no mundo real.
E o mundo real, muitas vezes, é mais limitado, mais injusto e mais desorganizado do que qualquer livro consegue mostrar.
A RESIDÊNCIA COMO VIRADA
A decisão pela Clínica Médica veio no internato.
E, de certa forma, isso também diz muito.
A Clínica Médica exige raciocínio amplo. Exige paciência. Exige tolerância à incerteza.
Não é uma especialidade para quem quer respostas fáceis.
Na residência, Nava encontrou outro tipo de desafio.
Não mais apenas a falta de recurso, mas a intensidade da formação. A mudança cultural. O interior de São Paulo. A distância de casa. A adaptação a uma nova rotina, a outro ritmo, a outro modo de funcionamento.
Ele saiu de uma realidade e entrou em outra.
E esse deslocamento, para quem vem do interior do Maranhão e vai fazer residência em São Paulo, não é apenas geográfico.
É emocional.
É cultural.
É profissional.
O Brasil é um país com muitos países dentro dele. E o médico que atravessa essas fronteiras internas também atravessa versões diferentes de si mesmo.
O QUE A FACULDADE NÃO CONSEGUE ENSINAR
A faculdade ensina base.
Ensina anatomia, fisiologia, semiologia, farmacologia, clínica, cirurgia.
Mas existe uma parte da medicina que só aparece quando alguém realmente precisa de você.
Quando não há mais professor conduzindo tudo.
Quando o paciente está ali.
Quando a decisão precisa ser tomada.
Quando a conduta tem consequência.
É nesse ponto que a formação médica muda de natureza.
O aluno quer saber se está certo.
O médico precisa saber o que fazer mesmo sem ter certeza absoluta.
Essa diferença parece pequena, mas é enorme.
E talvez seja uma das transições mais difíceis da medicina.
O PAPEL DE QUEM ORIENTA
Uma parte importante dessa conversa também foi perceber como pequenas orientações podem permanecer por anos.
Nava lembrou de conversas antigas, de caminhos sugeridos, de ideias que ficaram guardadas e influenciaram decisões futuras.
Isso me fez pensar sobre o papel de quem ensina.
Muitas vezes, o professor não sabe o impacto exato de uma frase.
Não sabe qual conselho vai ficar.
Não sabe qual conversa vai reaparecer anos depois, quando aquele aluno estiver diante de uma escolha importante.
Mas fica.
E por isso ensinar medicina exige responsabilidade.
Porque formar um médico não é apenas transferir conhecimento.
É ajudar alguém a construir critério.
O QUE O NAVA ME FEZ PENSAR
Saí dessa conversa pensando em quantos estudantes estão hoje tentando entender que tipo de médico querem ser.
Alguns querem apenas passar.
Outros querem sobreviver à graduação.
Outros ainda estão tentando descobrir se têm capacidade para sustentar a profissão que escolheram.
E a verdade é que ninguém sai pronto.
A medicina não entrega maturidade no diploma.
Ela começa a cobrar maturidade depois dele.
O Nava representa uma trajetória que muitos estudantes deveriam observar com atenção.
Não porque seja perfeita.
Mas porque é real.
Tem dúvida, deslocamento, choque, insegurança, esforço, adaptação e crescimento.
É assim que a formação acontece.
Não em linha reta.
Mas no atrito entre o que se aprende e o que a vida exige.
A medicina não começa quando o estudante entra na faculdade.
E também não termina quando ele se forma.
Talvez ela comece de verdade no momento em que ele entende que conhecimento, sozinho, não basta.
É preciso postura.
É preciso responsabilidade.
É preciso continuar aprendendo mesmo quando já te chamam de doutor.
Assista ao episódio completo no
YouTube: https://youtu.be/A0djASvoFhY
Spotify: https://open.spotify.com/episode/0mzgSPK9qLOqQZrDWjpIWx?si=YqftqOMET5ux_sdlf68mKg
Com participação do Dr. Jusciellyson da Silva Nava – @jsclnava
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