Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
Existe uma frase que todo médico já ouviu em algum momento da formação: “no meu tempo era pior”.
Ela costuma aparecer quando alguém questiona carga horária, exaustão, falta de descanso, excesso de plantões ou qualquer tentativa de discutir a estrutura da residência médica.
É uma frase curta, mas carrega um problema grande.
Porque transforma sofrimento em argumento. Usa a dor de uma geração para justificar a dor da próxima. E, ao fazer isso, evita a pergunta que realmente importa: a residência médica está formando melhor ou apenas testando até onde o residente aguenta?
No episódio 48 do Entre Neurônios, conversei com Karin Posegger sobre esse tema a partir das denúncias envolvendo residentes em São Paulo, com relatos de jornadas acima de 90 horas semanais em especialidades como neurocirurgia, ortopedia, cirurgia geral, otorrinolaringologia e ginecologia e obstetrícia.
O assunto voltou à superfície porque a realidade começou a ficar difícil demais para continuar sendo tratada como normal.
E talvez esse seja o ponto.
A medicina ainda tem muita dificuldade em separar formação intensa de exploração institucional.
A RESIDÊNCIA É NECESSÁRIA, MAS ISSO NÃO ENCERRA O DEBATE
Residência médica é uma das etapas mais importantes da formação de um especialista.
Isso precisa ser dito com clareza.
Não existe neurocirurgião, cirurgião, ortopedista, neurologista, clínico ou qualquer especialista bem formado apenas com teoria, aula e prova. Medicina exige prática. Exige repetição. Exige exposição ao paciente real. Exige plantão. Exige tomada de decisão. Exige erro corrigido, supervisão e amadurecimento.
A residência coloca o médico diante daquilo que o diploma ainda não entrega: responsabilidade progressiva.
Isso é essencial.
Mas o fato de a residência ser necessária não significa que qualquer modelo de residência seja aceitável.
Essa é a confusão.
Quando alguém critica jornadas excessivas, ausência de descanso, falta de supervisão ou adoecimento dos residentes, muita gente interpreta como ataque à formação médica. Não é.
A crítica não é contra a residência. A crítica é contra transformar a residência em um sistema que depende da exaustão para funcionar.
Formar bem não exige abandonar o residente.
Exige estrutura.
Exige preceptor presente.
Exige serviço organizado.
Exige volume adequado de pacientes.
Exige carga horária compatível com aprendizado e segurança.
Exige responsabilidade institucional.
Sem isso, a residência deixa de ser apenas formação e passa a funcionar como mão de obra barata vestida de experiência.
O PROBLEMA NÃO É SÓ QUANTAS HORAS SE TRABALHA
Quando o debate chega ao público, a primeira discussão costuma ser numérica.
Quantas horas por semana um residente deve trabalhar?
Sessenta?
Oitenta?
Noventa?
Mais?
O número importa, mas ele não explica tudo.
Uma residência com 60 horas mal supervisionadas, sem ensino, sem discussão de caso e sem estrutura pode ser pior do que uma rotina intensa em um serviço organizado, com bons preceptores e aprendizado real.
Ao mesmo tempo, não dá para esconder o óbvio: jornadas muito longas cobram um preço cognitivo, emocional e físico.
Sono não é detalhe.
Fadiga não é fraqueza.
Atenção não é infinita.
Tomada de decisão médica exige raciocínio, vigilância, memória, controle emocional e capacidade de julgamento. Quando um residente trabalha no limite por tempo prolongado, o problema deixa de ser apenas o sofrimento dele. Passa a ser também a segurança do paciente.
É por isso que, no episódio, trouxemos a comparação com outras profissões de alto risco.
Pilotos de avião têm limite de horas.
Controladores de voo têm limite de carga.
Profissões que exigem atenção extrema reconhecem que o cansaço altera desempenho.
Na medicina, ainda existe um discurso estranho: como lidamos com vidas, deveríamos suportar qualquer carga. Mas justamente porque lidamos com vidas, deveríamos levar mais a sério os limites humanos de quem cuida.
O residente não deixa de ser humano porque está de jaleco.
O BURNOUT NÃO É UM EFEITO COLATERAL ACEITÁVEL
Um dado citado na conversa chama atenção: em levantamentos recentes dentro da neurocirurgia, há uma proporção muito alta de residentes com critérios de burnout, especialmente em fases intermediárias da formação.
Isso não deveria ser tratado como estatística esperada.
Quando mais da metade de uma geração em formação está adoecendo, o problema não pode ser reduzido a perfil individual, falta de resiliência ou geração fraca.
Essa explicação é conveniente demais.
Ela tira a responsabilidade do sistema e coloca tudo nas costas do residente.
Claro que existe diferença entre pessoas. Alguns lidam melhor com pressão, outros pior. Alguns têm rede de apoio, outros não. Alguns têm mais maturidade, outros ainda estão construindo isso.
Mas quando o adoecimento se torna comum demais, deixa de ser exceção pessoal e passa a ser característica do ambiente.
A medicina tem uma tendência perigosa de transformar sofrimento em rito de passagem.
Como se passar por privação de sono, humilhação, medo e exaustão fosse parte obrigatória da identidade médica.
Só que sofrimento não é método pedagógico.
Cansaço extremo não é técnica de ensino.
Adoecimento não é sinônimo de maturidade.
A residência precisa ser difícil porque a medicina é difícil. Mas existe diferença entre dificuldade formativa e abuso normalizado.
A BOLSA NÃO PAGA A VIDA REAL
Existe outro ponto que muitas vezes fica escondido no debate: o dinheiro.
A bolsa de residência médica é baixa diante da responsabilidade, da carga horária e do custo de vida de muitas cidades. Em lugares como São Paulo, ela muitas vezes não cobre aluguel, alimentação, transporte e despesas básicas de um médico que saiu de outra região para se formar.
E aí surge uma contradição pesada.
O residente, em teoria, não deveria trabalhar fora.
Mas, na prática, muitos precisam dar plantões para pagar as contas.
O serviço exige dedicação integral, a bolsa não sustenta a vida, o chefe sabe que o residente trabalha por fora, mas oficialmente condena isso. Ao mesmo tempo, a própria instituição empurra jornadas que frequentemente extrapolam o previsto.
É um jogo de hipocrisia.
O residente é cobrado como se tivesse condição financeira e emocional de se dedicar exclusivamente à formação, mas não recebe suporte suficiente para isso.
Quando ele trabalha fora, dizem que está errado.
Quando ele não trabalha fora, muitas vezes não consegue se manter.
E quando ele adoece, dizem que precisa ser mais forte.
Essa conta não fecha.
A residência médica brasileira precisa discutir carga horária, sim. Mas também precisa discutir remuneração, moradia, alimentação, suporte psicológico, supervisão e condições reais de permanência.
Não adianta exigir dedicação integral sem oferecer condições mínimas para que ela exista.
A GERAÇÃO MAIS NOVA NÃO É NECESSARIAMENTE MAIS FRACA
Sempre que esse assunto aparece, alguém diz que a nova geração não aguenta.
Essa frase precisa ser analisada com cuidado.
É possível que gerações diferentes tenham formas diferentes de lidar com autoridade, carga horária, hierarquia e trabalho. Isso acontece em qualquer profissão.
Mas reduzir o debate a “fraqueza geracional” é uma forma preguiçosa de evitar mudanças.
Talvez a nova geração esteja reclamando mais porque tem menos tolerância a abusos que antes eram aceitos em silêncio.
Talvez esteja falando mais porque entende melhor saúde mental.
Talvez esteja denunciando mais porque o acesso à informação, às redes e aos órgãos de fiscalização mudou.
Talvez o que antes era chamado de força fosse, em muitos casos, apenas falta de opção.
Na medicina, demoramos para questionar vários comportamentos que pareciam intocáveis.
Trote abusivo.
Humilhação pública.
Hierarquias violentas.
Assédio moral.
Jornadas desumanas.
Muita coisa só começou a mudar quando alguém deixou de aceitar o argumento de que “sempre foi assim”.
Esse argumento nunca deveria bastar.
O fato de algo ter sido comum no passado não significa que deva continuar existindo.
O QUE FORMA UM BOM MÉDICO?
Essa é a pergunta central.
O que forma um bom médico?
É o número bruto de horas dentro do hospital?
É a quantidade de noites sem dormir?
É o volume de pacientes atendidos?
É a pressão?
É a repetição?
Em parte, sim. Mas só em parte.
Volume importa.
Exposição importa.
Responsabilidade importa.
Mas nada disso forma bem se não houver orientação, reflexão, correção e estrutura.
O residente precisa atender, mas também precisa discutir.
Precisa fazer, mas também precisa entender.
Precisa assumir responsabilidades, mas não pode ser largado sozinho em situações para as quais ainda não foi preparado.
Precisa ser cobrado, mas não humilhado.
Precisa ser exigido, mas não destruído.
Existe uma diferença enorme entre serviço forte e serviço desorganizado.
No serviço forte, o residente trabalha muito, mas aprende muito. Existe hierarquia clara, supervisão, rotina, discussão e padrão.
No serviço desorganizado, o residente também trabalha muito. Só que aprende no improviso, no medo e na sobrevivência.
O primeiro forma.
O segundo desgasta.
E, muitas vezes, ambos são tratados como se fossem a mesma coisa.
O RESIDENTE NÃO PODE SER O TAMPÃO DO SISTEMA
Existe uma realidade brasileira que precisa ser dita: muitos serviços dependem do residente para funcionar.
Não apenas para aprender.
Para funcionar.
O residente cobre escala, toca enfermaria, atende pronto-socorro, resolve demanda, segura corredor, faz procedimento, organiza pedido, conversa com família, responde intercorrência, assume problema.
Em vários lugares, se os residentes saem, o serviço sente imediatamente.
Isso mostra a importância deles, mas também revela o risco.
Quando uma instituição depende do residente como mão de obra essencial, ela precisa ter ainda mais responsabilidade sobre a formação e a proteção desse profissional.
O residente está ali para aprender trabalhando.
Não para substituir déficit estrutural de equipe.
Essa distinção é fundamental.
O trabalho faz parte da formação. Mas a formação não pode ser desculpa para cobrir buracos permanentes da assistência.
Quando isso acontece, o residente vira peça de sustentação do hospital, mas sem salário proporcional, sem autonomia plena e sem proteção compatível.
É uma posição frágil.
E o sistema sabe disso.
A MEDICINA BRASILEIRA TAMBÉM FORMA NO IMPROVISO
No final da conversa, apareceu outro ponto importante: a formação no SUS e a capacidade de adaptação.
Quem se forma em serviços públicos brasileiros aprende a resolver problemas com poucos recursos. Aprende a improvisar. Aprende a adaptar material. Aprende a lidar com falta de equipamento, fluxo ruim, exame indisponível, paciente grave e estrutura incompleta.
Isso gera uma habilidade real.
O médico fica mais solto, mais independente, mais capaz de pensar em soluções quando o ideal não está disponível.
Essa é uma força da formação brasileira.
Mas também não pode ser romantizada.
Adaptar porque não há recurso pode desenvolver raciocínio, mas também pode gerar estresse, risco e desgaste. Improvisar pode ser necessário em algumas situações, mas não deveria ser regra institucional.
Existe diferença entre criatividade clínica e abandono estrutural.
O médico formado no SUS muitas vezes aprende a fazer muito com pouco. Isso tem valor. Mas o país não deveria se orgulhar de obrigar seus profissionais a viver sempre no limite do pouco.
O ideal é formar médicos capazes de trabalhar em cenários difíceis, mas sem aceitar que o difícil seja a única realidade possível.
A DISCUSSÃO NÃO É CONTRA O PRECEPTOR
Também é importante não transformar esse debate em uma guerra simplista entre residentes e preceptores.
Existem preceptores excelentes, que carregam serviços nas costas, ensinam, protegem, corrigem e formam gerações.
Existem chefes que também trabalham sob pressão, em instituições desorganizadas, com poucos recursos, metas assistenciais e pouca margem de manobra.
O problema é mais amplo.
É institucional.
É cultural.
É financeiro.
É regulatório.
É histórico.
Mas reconhecer isso não significa aliviar a responsabilidade de quem exerce poder dentro do serviço.
Hierarquia em medicina é necessária. Mas hierarquia não pode ser autorização para abuso.
Cobrança é necessária. Mas cobrança não pode ser sinônimo de desrespeito.
Exigência é necessária. Mas exigência precisa ter finalidade pedagógica.
A pergunta que um serviço precisa fazer é simples: o residente está saindo melhor formado ou apenas mais cansado?
Se a resposta for a segunda, algo está errado.
A SEGURANÇA DO PACIENTE TAMBÉM ESTÁ EM JOGO
Quando falamos de residência médica, existe uma tendência de olhar apenas para o residente.
Mas o paciente também está no centro desse debate.
Um médico exausto pode errar mais.
Um residente sem supervisão pode decidir mal.
Um serviço que normaliza fadiga extrema pode comprometer atendimento.
Um ambiente de medo pode fazer o residente esconder dúvida, evitar perguntar ou atrasar decisões.
Isso não é bom para ninguém.
Nem para o médico em formação.
Nem para o hospital.
Nem para o paciente.
A boa formação médica precisa proteger os três: quem aprende, quem ensina e quem recebe o cuidado.
Quando uma dessas partes é sacrificada de forma constante, o sistema inteiro adoece.
E talvez esse seja o maior erro da cultura médica tradicional: acreditar que formar bons médicos exige quebrar pessoas no processo.
Não exige.
Exige responsabilidade.
O QUE ESSE EPISÓDIO ME FEZ PENSAR
A residência médica precisa continuar sendo intensa.
Precisa continuar sendo exigente.
Precisa continuar expondo o médico à realidade dura da profissão.
Mas intensidade não pode ser confundida com abandono.
Exigência não pode ser confundida com exploração.
Tradição não pode ser confundida com justificativa.
A medicina brasileira precisa amadurecer esse debate sem cair em caricaturas.
Não é sobre transformar residência em rotina confortável.
Não é sobre reduzir a formação a uma lógica corporativa de bem-estar superficial.
Não é sobre criar especialistas frágeis.
É sobre reconhecer que um sistema que forma médicos às custas de exaustão extrema, remuneração insuficiente, suporte frágil e abuso normalizado precisa ser revisto.
O residente não é aluno comum.
Também não é funcionário comum.
Ele está em uma posição híbrida, complexa e vulnerável. Aprende enquanto trabalha. Trabalha enquanto é avaliado. Cuida enquanto ainda está sendo formado.
Isso exige mais responsabilidade institucional, não menos.
Talvez a pergunta “formação ou exploração?” não tenha uma resposta única.
Em bons serviços, a residência pode ser formação intensa, transformadora e indispensável.
Em serviços ruins, pode virar exploração disfarçada de tradição.
O desafio é ter coragem de separar uma coisa da outra.
Porque, no fim, a residência não deveria medir apenas quanto o médico aguenta.
Deveria mostrar quanto uma instituição é capaz de formar sem adoecer, exigir sem destruir e ensinar sem abandonar.
Assista ao episódio completo no YouTube ou ouça no Spotify, os links estão abaixo.
YOUTUBE: https://youtu.be/3sCkOXiI9d0
SPOTIFY: https://open.spotify.com/episode/5Ru1RewpVgTg3NMExFZzy3?si=k9mu_NOISECUTANwCymsLw
Com participação de Karin Posegger – @karinposegger
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