O Limite Cognitivo do Médico: Quando o Corpo e a Mente Pedem Socorro

Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios

O episódio 30 do Entre Neurônios mergulhou de cabeça em um dos temas mais ignorados, porém urgentes da medicina moderna: os limites cognitivos do médico. Um debate intenso e revelador, conduzido por mim, com a participação brilhante da Dra. Karen, do estudante de medicina Arthur, e com a lembrança da ausência sentida do Dr. Paulo — que normalmente também integra nossas reflexões.


Um problema óbvio, mas invisível

“Todo mundo sabe que médico trabalha demais.” Essa frase, de tão comum, já virou quase um bordão. Mas o que ela esconde é a normalização do absurdo. No episódio, trouxemos dados estarrecedores: quase 30% dos pacientes hospitalares sofrem algum evento adverso. E um dos principais fatores de risco para isso? A sobrecarga cognitiva e emocional dos profissionais de saúde.

A discussão partiu dessa constatação básica: médicos, enfermeiros, técnicos e residentes não são máquinas. A privação de sono, o excesso de plantões, a ausência de políticas claras de descanso e a precarização das condições de trabalho têm efeitos diretos na performance — e no risco para o paciente.


Dormir em pé, operar cansado, errar por fadiga

Citei experiências pessoais da época da residência: dormir duas horas por noite durante uma semana, cochilar em pé durante uma cirurgia, não conseguir ler um hemograma por falta de foco visual. Isso não é raro — é padrão.

Arthur compartilhou como interno o impacto da rotina hospitalar em sua cognição: “Cheguei um dia no hospital sem dormir, com mal-estar, e precisei lembrar de dezenas de informações. Foi terrível.” E é justamente nesse estado de exaustão que estamos tomando decisões críticas.

A Dra. Karen acrescentou:

“O cérebro fatigado entrega diferente. A performance cai. Mas existe uma cultura de ‘aguentar mais’, de que o médico é super-herói. E isso é perigoso.”


A medicina sem limite, diferente da aviação

Fizemos um paralelo direto com a aviação. Um piloto tem limite de horas de voo e precisa descansar em condições adequadas. Há regulamentos internacionais rígidos. E na medicina? Não há limite de atendimentos por dia, nem normas sobre quantas horas se pode operar ou quantos plantões seguidos um profissional pode fazer.
Como bem observou Karen:

“No hospital, o médico atende 30 pacientes seguidos, vindo de outro plantão, comendo mal, dormindo pouco, e ainda se cobra excelência.”

Esse ambiente é propício ao erro. E como mostram estudos, a chance de erro aumenta em até 60% com a fadiga, sendo os recém-formados e os profissionais com múltiplos vínculos os mais vulneráveis.


O erro invisível que começa na má gestão

Muito além da performance individual, o episódio evidenciou que o sistema de saúde brasileiro favorece o erro estrutural. Falta plano de carreira, faltam equipes fixas, falta cultura institucional. O rodízio de profissionais, a ausência de padronização de condutas e a falta de integração geram descontinuidade no cuidado e insegurança para o paciente.

Arthur ilustrou essa realidade com um caso chocante:

“Em um hospital, cada médico evoluía os pacientes como queria. Não havia passagem de plantão formal. O paciente escutava uma versão diferente de cada médico. Virava um caos.”


O médico como peça descartável do sistema

O modelo atual trata o profissional como um insumo, e não como o pilar central da assistência. Salários baixos, múltiplos vínculos, falta de reconhecimento. E a conta chega: burnout, erros, judicialização, desistência da profissão.

Reflito: “Será que não é mais barato, no longo prazo, investir em equipes fixas, treinadas, bem remuneradas e com plano de carreira?”
Assim como na França se provou que o tratamento endovascular, embora inicialmente mais caro, se torna mais barato ao evitar internações longas e complicações, talvez esse modelo de gestão de pessoas também seja mais eficiente e seguro para todos.


O que fazer?

Karen trouxe a experiência do Hospital do Amor, em Barretos, como exemplo de modelo bem-sucedido:

“Eles contratam o médico para trabalhar só lá. Investem em plano de carreira, cultura institucional, estrutura. E os resultados mostram que funciona.”

E ainda enfatizou:

“O hospital precisa entender que o mais importante é o médico. Porque é ele quem leva o paciente para onde quer que vá. Um bom médico fideliza. Um médico feliz entrega excelência.”


O limite é real. E foi ultrapassado.

Encerramos o episódio com a constatação de que a medicina brasileira — pública e privada — está operando no limite. Não do sistema, mas do ser humano. Enquanto esse limite cognitivo for ignorado, os erros continuarão, o sofrimento aumentará, e a qualidade cairá.

“A medicina exige corpo, mente, técnica, emoção. E tudo isso tem limite. Negar esse limite é ser antiético, é comprometer vidas,” finalizo.


🎧 Ouça agora o episódio completo no Entre Neurônios

Se você é médico, estudante de medicina, gestor hospitalar, paciente ou apenas alguém interessado em entender a crise silenciosa por trás das portas de um hospital, este episódio é essencial.📲 Assista no completo YouTube: https://youtu.be/MdKUaufofuI
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