Burnout na Medicina: Quando a Dedicação Se Torna Autodestruição

Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios

Eu já vi de perto como a rotina médica pode nos levar à exaustão. E nesse terceiro episódio do Entre Neurônios, eu tive o privilégio de dividir essa conversa tão necessária com a Dra. Karin Posegger, psiquiatra experiente e direta ao ponto, e com os estudantes Paulo e Arthur — que trouxeram vivências reais e reflexões corajosas sobre o estresse na formação médica.

O tema foi “Burnout na Medicina” — e não dá para florear. Essa condição virou uma epidemia silenciosa. A gente ouve nos corredores, nas conversas rápidas e até em desabafos durante os plantões: cansaço extremo, perda de sentido, isolamento. E a ciência confirma: segundo uma revisão sistemática recente, mais de 50% dos profissionais de saúde apresentam algum grau de burnout.

A Karin foi cirúrgica quando comparou o burnout à nossa própria criptonita. E ela está certa. A medicina cobra demais — e quase sempre sem ensinar a dosar. Existe uma romantização da entrega total, do sacrifício contínuo. Mas a verdade é que isso nos distancia de nós mesmos.

Paulo trouxe um exemplo muito marcante: a festa de aniversário em que ele estava presente, mas não conseguia se sentir bem. Estava exausto, esgotado. E ali, no meio da comemoração, ele percebeu quanto a medicina já tinha lhe tirado da vida pessoal. Arthur também compartilhou sua dificuldade em dizer não aos projetos, e como isso o levou a um ciclo de estresse em cadeia. As histórias deles mostram que, mesmo no início da carreira, o burnout já ronda com força.

Como médico e professor, eu insisto sempre: estresse faz parte, sim. Mas o que adoece é o estresse crônico, constante, mal gerenciado. No episódio, expliquei os mecanismos neurobiológicos por trás disso — desde a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal até a liberação exagerada de cortisol, que afeta memória, humor, imunidade e metabolismo. O corpo cobra. A mente cobra. E se a gente não escuta, a conta chega.

Mas existe saída. Falamos sobre a importância do autoconhecimento — cada um precisa entender qual é o seu limite e descobrir o que funciona como válvula de escape. Para mim, às vezes, é uma corrida à meia-noite. Para o Arthur, assistir a um filme com o pai já ajuda a recarregar. Não tem receita única, mas tem uma certeza: você precisa parar e se escutar.

A Karin nos lembrou algo essencial: ninguém atravessa a tempestade sozinho. Ela mostrou o exemplo simbólico do “Wilson” — aquela bola do filme Náufrago — para dizer que precisamos nos comunicar, pedir ajuda, criar vínculos. E, além disso, defendeu com firmeza a necessidade de que instituições criem canais reais de suporte à saúde mental. E eu reforço: não basta ter o recurso. É preciso promover, incentivar, normalizar o cuidado com o emocional.

Esse episódio é um convite à reflexão. Para os estudantes, profissionais da saúde e, principalmente, para os gestores e instituições. O burnout não é fraqueza — é um alerta do corpo e da mente de que algo precisa mudar.

Se você ainda não ouviu esse episódio, ele está disponível no podcast Entre Neurônios. Compartilhe com um colega que precisa escutar isso. E lembre-se: você não é um super-herói — você é humano. E isso já é mais que suficiente.

🎙️ Assista agora ao episódio completo do podcast Entre Neurônios no YouTube 


Com participação da psicanalista Dra. Karin Posegger e dos estudantes Paulo e Arthur

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