DA CIRURGIA PEDIÁTRICA EM SÃO PAULO AO SISTEMA DE SAÚDE CANADENSE: O QUE UMA CARREIRA NÔMADE ENSINA SOBRE MEDICINA E SOBRE ESCOLHAS

Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios

Existem trajetórias que não cabem num currículo. Que precisam ser contadas com calma, com contexto e com honestidade sobre os tropeços que vieram no meio do caminho.

No episódio 41 do Entre Neurônios, conversei com o Dr. Caio Alexandre Raicher, cirurgião pediátrico formado em Taubaté, com residência na Santa Casa de São Paulo, anos de carreira em São Paulo, em Santa Catarina, aprovações nos Steps americanos e, hoje, morando e fazendo mestrado no Canadá, perto das Cataratas do Niágara.

É uma trajetória que atravessa décadas, cidades, países e sistemas de saúde completamente diferentes. E o que mais me chamou atenção não foi a mudança em si, mas o que cada etapa revelou sobre como se constrói, e como se reconstrói uma carreira na medicina.

O CONVIDADO

O Dr. Caio Raicher é cirurgião pediátrico com mais de vinte anos de carreira. Formado pela Universidade de Taubaté, fez residência em cirurgia geral no Hospital Universitário de Taubaté e subespecialidade em cirurgia pediátrica na Santa Casa de São Paulo, uma das referências mais sólidas do país na área. Ao longo da carreira, atuou também como diretor de hospital, fez especializações em perícia médica, aprovou nos Steps 1 e 2 para validação nos Estados Unidos e obteve aprovação em prova de habilitação para exercício da medicina em Dubai. Faixa-preta de jiu-jítsu brasileiro, hoje está no Canadá cursando mestrado e construindo o próximo capítulo de uma história que, como ele mesmo diz, ainda não sabe exatamente onde vai terminar.

A FORMAÇÃO QUE VEIO ANTES DA TÉCNICA

Uma coisa que ficou comigo nessa conversa foi como o Caio fala sobre a faculdade em Taubaté, não com nostalgia, mas com clareza sobre o que aquele ambiente lhe deu.

Ele entrou no curso com dezessete anos, sem saber cozinhar um ovo, morando numa kitnet perto do campus, longe das facilidades de São Paulo. No primeiro ano, teve gastrite de ansiedade. E mesmo assim, construiu ali uma das bases mais sólidas da sua trajetória, não só pelo nível dos professores da época, mas pelo processo de socialização que a vida universitária exigiu.

Caio faz uma observação que ressoa muito com o que vejo na mentoria: a carreira médica não começa com a residência. Ela começa muito antes, nas conexões que você constrói durante a graduação, nos estágios que você busca por conta própria, nas atividades extracurriculares que parecem secundárias mas abrem portas que nenhuma nota de prova abre.

Ele foi jogador de futebol, praticou outros esportes, fez conexões dentro e fora do ambiente acadêmico. E quando chegou a hora de disputar vagas de residência, já tinha algo que muitos candidatos não tinham, uma rede e uma história.

Sua turma ficou entre as melhores do estado numa avaliação de proficiência organizada pelo CRM da época, algo muito próximo do debate que estamos tendo hoje com o ENAMED. Isso não foi acidente. Foi o resultado de um ambiente que valorizava a formação de verdade, com professores que vinham de São Paulo para dar aulas, autores de livros, pesquisadores, mestres e doutores que tinham feito o que era raro naquela geração: investir na formação acadêmica além da clínica.

A RESIDÊNCIA QUE FORJOU

A residência em cirurgia geral do Caio começou com quatro residentes e terminou com três, porque um colega morreu em um acidente de carro na primeira folga que tiveram, no feriado de 1° de Maio. A data ficou marcada: era o primeiro dia que ele não trabalharia desde o início da residência, que acontecia de segunda a sábado, sem concessões.

Diante da perda, a equipe que ficou manteve o ritmo, às vezes em escala de dois. Trinta dias, eu e você. Depois revezava. Era exaustivo, era pesado e foi extraordinariamente formativo.

Quando perguntei o que ele diria para quem está começando uma residência cirúrgica, a resposta foi uma das mais honestas que já ouvi: marque no calendário o dia que começa e quanto tempo falta para terminar. Combine com o seu corpo que vai aguentar. Não tem atalho.

A residência cirúrgica não tem compromisso com horário. Neurocirurgia, ortopedia, cirurgia geral, ginecologia, todas elas. Tem coisa o dia inteiro. Tem urgência à noite. E o que você firma quando escolhe essa especialidade é um compromisso com o paciente que não pode ser negociado por cansaço.

Mas existe uma recompensa nesse processo que vai além da técnica. Quem conversa com um médico antes e depois da residência cirúrgica está falando com pessoas diferentes. A residência não só ensina a operar, ela amadurece de um jeito que nenhuma outra experiência consegue reproduzir.

Depois da cirurgia geral, veio a subespecialidade em cirurgia pediátrica na Santa Casa de São Paulo. E aí o contraste foi revelador: Taubaté tinha ensinado a operar com volume e pressão. A Santa Casa ensinou o porquê de cada decisão. A ciência por trás da técnica. O refinamento que só um hospital de grande porte, com produção acadêmica intensa e casos de alta complexidade, consegue dar.

Como ele mesmo resumiu: Taubaté lapidou o diamante bruto. A Santa Casa o poliu.

O MERCADO QUE NINGUÉM CONTA SOBRE CIRURGIA PEDIÁTRICA

Tem uma percepção equivocada, muito comum entre estudantes e residentes, de que a cirurgia pediátrica é uma especialidade sem glamour e sem retorno financeiro. O Caio desfaz esse mito com clareza.

A cirurgia pediátrica oferece algo que poucas especialidades têm: volume cirúrgico com complexidade controlada, urgências noturnas raras, a possibilidade de trabalhar em múltiplos hospitais simultaneamente e, o que talvez seja o mais valioso, a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento de uma criança ao longo dos anos.

Não é a especialidade com mais status nas rodas médicas. Mas é uma especialidade que permite construir uma carreira sustentável, com qualidade de vida razoável e com um significado que vai além do procedimento.

Escolheria novamente, ele me disse, sem hesitar, com todos os problemas, com toda a falta de glamour e com a consciência de que foi a cirurgia pediátrica que abriu cada porta importante da sua trajetória.

A DECISÃO DE SAIR DO BRASIL

A saída do Brasil não foi uma decisão única. Foi um processo que se desenvolveu ao longo de anos, com pausas, tentativas frustradas e reestruturações de rota.

A primeira vez que o Caio cogitou sair foi em 2014, ainda em Taubaté, em um momento de desencantamento político. O pensamento veio e foi embora. Depois mudou para Santa Catarina, construiu carreira sólida, tornou-se diretor de hospital, desenvolveu maturidade administrativa que a maioria dos médicos nunca tem a chance de desenvolver.

A decisão real de buscar a validação internacional veio anos depois. Ele passou dez meses estudando sozinho, chegava em casa depois do trabalho, brincava um pouco com os filhos e sentava para estudar até meia-noite. Sem cursinho, sem grupo de estudo. Apenas ele, os materiais e a disciplina de quem já sabia o que queria.

Passou no Step 1. Depois no Step 2. Estava preparado para o próximo passo nos Estados Unidos quando o visto foi negado no consulado americano por uma questão burocrática que não tinha relação direta com a qualificação dele. Uma semana difícil. E depois, uma decisão: o plano era sair do Brasil, não especificamente ir para os Estados Unidos.

O Canadá veio como alternativa real. Processo diferente, sem entrevista presencial, mais transparente em critérios. E em algumas semanas, o passaporte com o visto estava na mão.

O QUE O CANADÁ ENSINA SOBRE SISTEMAS DE SAÚDE

Morar e estudar no Canadá deu ao Caio uma perspectiva comparativa que poucos médicos brasileiros têm na prática, não como turista de congresso, mas como alguém que usa o sistema, convive com os profissionais e entende como ele funciona por dentro.

O sistema canadense é público, universal e gratuito no ponto de acesso. As queixas dos próprios canadenses são parecidas com as que ouvimos aqui: demora, fila, espera. Mas o que funciona melhor é a integração. A rastreabilidade. O cadastro vacinal que cobra automaticamente e que impede a criança de entrar na escola sem estar em dia. As triangulações entre saúde, educação e serviços sociais que no Brasil existem no papel mas raramente se conectam na prática.

E tem algo que o Caio não esperava encontrar: o canadense é empático de um jeito silencioso. Não é o abraço caloroso do brasileiro, não é a efusividade que confundimos com hospitalidade. É uma gentileza estrutural, uma preocupação genuína com o bem-estar do outro que permeia as relações cotidianas e que impacta diretamente a qualidade de vida de quem está de fora.

Sobre remuneração, a análise dele é direta: Estados Unidos no topo absoluto, liberdade, renda alta, mas uma sociedade com contradições sérias. Dubai em segundo lugar para quem quer maximizar renda no médio prazo, sem imposto de renda, contratos bem estruturados, medicina de ponta, mas com questões culturais que exigem maturidade para navegar. Canadá em terceiro em renda bruta, mas com saúde pública, educação pública e uma estrutura de seguridade social que compensa parte do que é tributado. Brasil com remuneração fragmentada, dependente de volume de plantões em múltiplos hospitais e com uma estrutura de recebimento que frequentemente atrasa meses.

O QUE ESSA TRAJETÓRIA ME ENSINA COMO MÉDICO E COMO PROFESSOR

Escutando o Caio, fiquei pensando em algo que repito constantemente para os meus alunos, mas que essa conversa iluminou de um ângulo novo.

Carreira médica é longa demais para ser construída com pressa. E é diversificada demais para caber num único formato.

O Caio levou quase trinta anos para chegar onde está. Passou por Taubaté, Santa Casa, mercado em São Paulo, direção de hospital em Santa Catarina, aprovações internacionais, negativa de visto, reconstrução de plano e uma nova vida no Canadá. Cada etapa foi necessária. Nenhuma foi um erro.

O que mais me incomoda no debate atual sobre carreira médica é a ilusão do atalho. O médico do Instagram que monetiza antes de operar. O profissional que troca a formação sólida pelo dinheiro rápido sem entender que a vida útil desse modelo é curtíssima. Como o Caio disse com precisão cirúrgica: cardiologista vai continuar sendo cardiologista daqui a vinte anos. O médico de procedimentos sem base de especialidade vai ter dificuldade de se manter relevante.

A medicina muda. As tecnologias mudam. Os protocolos mudam. O que não muda é que o especialista que construiu base sólida, que passou pelo processo formativo completo, que foi refinado pela experiência, esse vai continuar tendo algo para oferecer décadas depois.

Essa é a aposta que vale. Não é a mais rápida. Mas é a que dura.

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Com participação do Dr. Caio Alexandre Raicher | Cirurgião Pediátrico | LinkedIn: Caio Raicher

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