E se a Medicina não era o que eu sonhei?

Em algum momento da minha trajetória, mesmo cercado de jalecos, bisturis e centros cirúrgicos, me peguei com uma pergunta que ecoava de forma incômoda e silêncio: “E se a medicina não era o que eu sonhei?”

Não foi uma pergunta confortável — e confesso que, no início, resisti a ela. Afinal, a medicina, para mim, sempre foi mais que uma escolha profissional: foi quase um destino natural. Filho de médico, apaixonado por biologia e fascinado pelos seriados médicos dos anos 90, cresci entre os corredores do Hospital São Paulo. Era como se tudo já estivesse traçado.

Mas não. Nenhum sonho sobrevive inteiro ao contato com a realidade sem ser transformado.

A medicina, como ela nos é vendida, é quase sempre um campo de vocação, heroísmo e propósito. O médico é o salvador, o incansável, o que não falha.

Só que quando você entra de verdade no jogo — aquele da sala de emergência com cheiro de sofrimento, dos plantões sem dormir, da solidão do R1 diante de um paciente grave sem respaldo nenhum — você percebe que a realidade é outra.

O glamour dá lugar ao esgotamento. A admiração vira cobrança. E o sonho, se não for sustentado por algo mais profundo, racha.

Foi com o desejo de abrir espaço para esse tipo de reflexão que lancei o podcast Entre Neurônios. No episódio de estreia, tive a honra de contar com três hosts especiais que enriqueceram a discussão com suas vivências únicas.

Ao meu lado esteve a psicanalista Dra. Karin Posegger, com sua visão sensível e científica sobre as projeções idealizadas que colocamos sobre a medicina — e o que acontece quando a realidade frustra essas expectativas.

Também participaram dois estudantes de medicina com quem tenho grande afinidade e admiração: Paulo e Arthur. Eles compartilharam com coragem suas histórias de incerteza, desmotivação, reencontro com o propósito e redescoberta da paixão pelo curso através das ligas acadêmicas e do contato com a prática real.

Quando é permitido mudar de ideia?

Arthur queria engenharia. Paulo cogitou direito. Ambos caíram de paraquedas na medicina. E mesmo sem o “chamado clássico”, hoje encontraram propósito. Não porque foram convencidos, mas porque se permitiram experimentar, viver a dúvida e encontrar um novo olhar.

Eu mesmo, no auge do R1, cogitei desistir. Liguei para o meu pai do hospital pedindo ajuda. Senti medo, angústia, exaustão. E, no fim, percebi que desistir da neurocirurgia seria apenas trocar uma dor por outra. O desafio não era se continuar, mas como continuar.

Karin destacou com muita sensibilidade que precisamos parar de tentar encaixar nossa identidade no jaleco. O jaleco é ferramenta — não essência. A medicina pode ser parte da nossa jornada, mas ela não precisa ser o nosso rótulo definitivo.

Ser médico não nos impede de sermos também humanos, filhos, pais, artistas, empreendedores. A pluralidade é o que nos fortalece, não o contrário.

Se você é estudante e já sente um vazio. Se você é médico e o cansaço já não é só físico. Se você sente que a medicina está te afastando de você mesmo…

Você não está sozinho.

A medicina é vasta. Ela é alfa e ômega. Ela é vida e morte. Ela pode ser sacerdócio, mas também pode ser ciência, ensino, arte ou gestão. Há espaço para todos. E o mais importante: há permissão para recalcular.

Nenhum caminho vale a pena se nos desumaniza. E nenhuma escolha é tão definitiva que não possa ser revista.

Que a sua jornada na medicina seja feita de encantos, sim, mas também de coragem para dizer: “Isso não me cabe mais.” E se for o caso, que você saiba mudar de rota, buscar um mentor, ou simplesmente descansar.

Porque um bom médico não é aquele que aguenta tudo — mas sim aquele que sabe onde, como e por que quer continuar.

🎙️ Assista agora ao episódio completo do podcast Entre Neurônios no YouTube

Com participação da psicanalista Dra. Karin Posegger e dos estudantes Paulo e Arthur

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