O QUE NOS FAZ GOSTAR DO QUE FAZEMOS?

Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios

O episódio 28 do Entre Neurônios nasceu de uma pergunta simples, mas profundamente relevante: o que nos faz continuar gostando da medicina, mesmo com todas as pressões, sobrecargas e decepções que ela pode trazer? Ao lado dos alunos Arthur e Paulo, mergulhei em uma conversa honesta sobre a origem e a manutenção do propósito — esse fio invisível que sustenta quem insiste em cuidar do outro.

A paixão resiste ao tempo?

Nos primeiros anos, tudo é novidade. O estetoscópio no pescoço, o jaleco branco, a primeira vez que escutamos um sopro cardíaco, a emoção de uma anamnese bem feita. Mas, com o tempo, a rotina se impõe. As burocracias crescem. Os atendimentos se tornam repetitivos. E o risco maior não está no cansaço, mas na anestesia afetiva.

Arthur trouxe uma reflexão precisa: “A gente entra na medicina encantado com o que ela promete, mas precisa lutar para continuar encantado com o que ela entrega.” Essa frase sintetiza o que tantos de nós sentimos: a vocação permanece, mas precisa ser alimentada.

Entre a vocação e a exaustão

Lembrei, durante o episódio, de uma fala que repito com frequência para os meus alunos: “A medicina é uma escolha diária. Se você não a reescolher, ela te consome.” E essa escolha nem sempre é óbvia. Muitas vezes, ela exige coragem para dizer “sim” a si mesmo antes de dizer “sim” ao paciente.

Paulo trouxe outra perspectiva valiosa: “Não é sobre grandes feitos épicos. É sobre encontrar significado no cotidiano.” De fato, muitas vezes a medicina se revela não em diagnósticos raros ou cirurgias mirabolantes, mas no conforto silencioso que oferecemos a alguém em sofrimento. No toque, no olhar, na escuta.

O risco de perder o propósito no meio do caminho

Falamos também sobre as armadilhas da comparação. As redes sociais vendem uma ideia de sucesso que, na maioria das vezes, é editada. Como disse Arthur: “Ninguém posta as dúvidas existenciais, os fracassos, os dias em que pensamos em desistir.” E é verdade. O excesso de vitrine digital pode distorcer o espelho interno.

Citei, nesse momento, uma frase do filósofo Friedrich Nietzsche que me acompanha: “Quem tem um porquê enfrenta qualquer como.” Na medicina, reencontrar o nosso “porquê” é o que nos permite atravessar o caos do “como”.

Gostar do que se faz é uma prática, não uma constante emocional

Durante a conversa, ficou claro que gostar do que se faz é uma construção diária. Não é algo que simplesmente permanece. É como uma planta: se você não rega, murcha. Se você não cuida, morre. E esse cuidado passa por pausas, por vínculos saudáveis, por atividades fora da medicina, por relações que nos lembrem quem somos além do CRM.

Arthur compartilhou uma prática pessoal: “Eu costumo anotar momentos bons do dia, por mais simples que sejam. Às vezes, isso me salva.” Essa pequena estratégia é uma forma de resistência afetiva. É uma forma de treinar o olhar para o que ainda pulsa de vida no meio da rotina.

A reconexão é um ato terapêutico

Esse episódio me levou a revisitar os motivos que me fizeram escolher a medicina. Lembrei da primeira vez que entrei em um centro cirúrgico. Do primeiro paciente que sorriu depois de uma alta difícil. Do sentimento de fazer parte de algo maior do que eu. Isso não pode ser esquecido. Isso precisa ser cultivado.

Finalizo com uma citação que carrego comigo: “A medicina é a arte de curar, mas também é a arte de escutar, de permanecer e de resistir.”

Se você está cansado, desmotivado, desconectado do que faz, esse episódio é um convite à reconexão. A medicina ainda pode ser bonita. Mas, para isso, ela precisa caber em você. E você precisa caber nela.

🎙 Assista agora ao episódio completo:
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