Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
No episódio 35 do Entre Neurônios, nos afastamos dos corredores da medicina para nos aprofundarmos em um tipo diferente de saúde: aquela que só a natureza é capaz de restaurar. Recebemos Leif Posegger irmão da co-host Karin Posegger engenheiro, fotógrafo premiado e um verdadeiro “Indiana Jones” moderno, como foi apresentado com carinho no início do episódio.
Em uma conversa rica, sensível e profundamente humana, Leif compartilhou vivências que transcendem o comum: acampamentos em meio à neve do Canadá, noites cercadas por lobos, trilhas sem sinal de celular e encontros solitários com o próprio silêncio.
Fugir para se encontrar
A jornada de Leif começa cedo inspirada por filmes, alimentada pelo desejo de liberdade e consolidada ao longo dos anos entre florestas norueguesas, reservas canadenses e experiências extremas de desconexão. Como ele mesmo relata:
“A gente se preocupa tanto com coisas que não têm importância… e só quando a gente sai da máquina, do automático, é que percebe isso.”
Esse “sair da máquina” não é uma metáfora. Leif se propõe a acampar sozinho em temperaturas de até -45ºC, enfrentando o silêncio absoluto do inverno, sem distrações, com o mínimo de recursos. E ali, no meio do nada, encontra tudo: passado, presente e futuro. Reflexões que não cabem na rotina, mas florescem quando o mundo cala.
Um tipo raro de coragem
Mais do que aventuras, o que Leif nos oferece é um convite: a coragem de estar consigo mesmo. Ele relata, por exemplo, a sensação de nunca estar sozinho, mesmo em acampamentos isolados:
“Eu sempre falava no plural. ‘Vamos fazer o café?’. Parecia que tinha alguém ali comigo.”
Essa presença simbólica se confunde com espiritualidade, conexão com o todo, talvez até com Deus. Em suas palavras, o inverno é o cenário mais potente para esse tipo de experiência não apenas por sua dureza física, mas por exigir entrega total.
“A natureza te ensina. Ali, você escuta até o seu coração batendo.”
A fotografia como oração silenciosa
Leif também compartilha seu amor pela fotografia. Suas imagens da aurora boreal, captadas sem inteligência artificial, renderam prêmios no Canadá e despertam, em quem as vê, um tipo de encantamento raro. Mas ele não fotografa para mostrar. Fotografa para lembrar.
“A câmera registra o que os olhos veem, mas o coração guarda o que a alma sente.”
Essa sensibilidade não se resume à floresta. Leif também trabalha no sistema de saúde mental do Canadá, onde atua dentro de hospitais psiquiátricos. Lá, entre pacientes esquecidos pelo mundo, ele pratica outro tipo de presença: o acolhimento.
Das montanhas ao hospital: humanidade em todos os lugares
Durante o episódio, Leif descreve com simplicidade encontros com pacientes internados há décadas. Um deles, em prantos, dizia:
“Meu sonho é sair daqui, trabalhar, ter uma namorada. Mas eu sei que vou passar minha vida inteira nesse prédio.”
Essa frase, dita com a inocência de quem nunca terá uma vida comum, gerou silêncio no estúdio. Leif continuou:
“A gente sai de lá com vergonha de reclamar. Porque ali dentro, existe uma verdade que não se vê aqui fora.”
Esses dois mundos o das trilhas e o dos hospitais se conectam no olhar de Leif. O silêncio da floresta é o mesmo silêncio do paciente esquecido. E em ambos, é preciso saber escutar.
Um convite à reconexão
Dr. Fábio encerra o episódio com uma reflexão poderosa:
“A gente lida com a alma humana. E pra isso, precisa entender que o que nos cura muitas vezes não está nos livros mas na experiência de estar presente, com o outro e consigo mesmo.”
O episódio 35 é, acima de tudo, um lembrete: não estamos sozinhos. Não precisamos de montanhas geladas para nos encontrar, mas precisamos de pausa. De silêncio. De algum tipo de reconexão.
📌 Ouça agora o episódio completo:
YouTube: https://youtu.be/BxkH8if9ceU
Spotify: https://open.spotify.com/episode/1iCBnpYTNFU1BhqXqObw9F?si=rpEUBO8iTROmgTnYakif-Q
📸 Para ver as fotografias do Leif Posegger, acesse o perfil da Dra. Karin no Instagram: @karinposegger.psicanalise.
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