Sozinho no Front: Quando Ser Médico É o Único Recurso

Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios

Ser médico é, antes de tudo, um compromisso. Com o conhecimento, com a dor alheia, com a prática e com o humano. No episódio 19 do podcast Entre Neurônios, me senti honrado em receber meu amigo de longa data, o Dr. Rubens Luis Folchini Fernandes, médico psiquiatra e psicoterapeuta com formação pela UNIFESP e experiência única em interconsulta e psicanálise. Mais que um colega, um provocador de reflexões.

Neste encontro, debatemos uma realidade incômoda e urgente: o médico, apesar de todo aparato tecnológico, continua sendo o único recurso humano em muitas situações críticas. E o que assusta é que cada vez menos se reconhece isso.


Vivemos um tempo em que os avanços tecnológicos promovem eficência diagnóstica e otimizam a gestão do cuidado. Mas onde está o médico nesse processo? Rubens e eu refletimos sobre esse apagamento simbólico da figura médica. Hospitais barulhentos, pacientes vistos como “números” de uma produção, e uma prática onde protocolos eclipsam a escuta e a presença.

Quando a relação se fragiliza, perdemos o que é essencial: a confiança. E é por isso que, mesmo diante de tanta parafernália, ainda escutamos expressões como: “Meu médico”. Porque a medicina, em sua essência, é relacional. E esse vínculo não pode ser transferido para um algoritmo.


O ponto de partida desse apagamento é a formação. Cursos de medicina proliferam sem critério, e o ingresso se banalizou. O que antes exigia entrega e vocação, hoje é alcançado por conveniência. Rubens compartilhou dados empíricos assustadores: jovens médicos abandonando plantões, pedindo demissão após a primeira crise, preferindo empreender ao exercer a medicina.

Falta estrutura emocional. Falta sentido. Muitos médicos sofrem em silêncio, desamparados. E sofrem porque se importam. Como disse Rubens, só sofre quem está envolvido. Valorizar esse sofrimento é também um ato médico.


Discutimos o conceito de arquétipo: essa imagem simbólica e universal que representa o médico. Alguém a quem se confia a própria vida. O mentor, o guia, o confidente. Alguém que encarna a esperança. Esse arquétipo está ameaçado, e com ele, toda a medicina que acreditamos ser possível.

Mas há caminho. O reencontro com esse papel exige coragem, escuta, reflexão e humildade. Exige reconhecer que, mesmo com exames, aplicativos e inteligências artificiais, é na relação entre duas pessoas que acontece a verdadeira cura.


Rubens lembrou de Viktor Frankl: o sofrimento sem sentido gera desespero. E talvez seja isso que tantos médicos vivenciem hoje. Uma crise de sentido. A medicina virou produto, e o médico, fornecedor. Mas o paciente continua chegando com dor, medo e esperança. E ele precisa encontrar um humano, não um protocolo.

O médico continua sendo o único recurso quando tudo falha. Não por vaidade, mas por responsabilidade. Ser médico é assumir que existe uma esperança que é depositada em nós. Que não se compra, não se automatiza e não se terceiriza.

Esse episódio é um convite à reflexão. Uma homenagem ao sofrimento que forma, à escuta que cura e à relação que transforma. Aos estudantes, residentes e médicos: talvez a revolução que buscamos seja apenas um retorno à origem.

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