Por Dr. Fábio Serra – Neurocirurgião e idealizador do podcast Entre Neurônios
Existe uma pergunta que circula em silêncio nos corredores de toda faculdade de medicina do interior do Brasil. Uma pergunta que não cai em prova, não está em nenhum manual de carreira e raramente alguém tem coragem de fazer em voz alta:
“Preciso sair daqui para me tornar o médico que quero ser?”
Não é uma pergunta confortável. E confesso que, ao longo dos anos formando médicos como professor universitário e acompanhando trajetórias como mentor, percebi que a maioria das pessoas que carrega essa dúvida não precisa de resposta pronta. Precisa de alguém que já atravessou esse caminho e esteja disposto a falar com honestidade, sobre os ganhos, sobre o custo e sobre o que essa experiência realmente transforma.
Foi com esse desejo que construí o episódio 40 do Entre Neurônios.
OS CONVIDADOS
Desta vez, trouxe dois médicos formados aqui mesmo em Araguaína, pelo Centro Universitário Tocantinense Presidente Antônio Carlos, a UNITPAC, para falar sem filtro sobre a transição do interior para São Paulo.
A Dra. Larissa Brasil Cavalcanti se formou em 2023, trabalhou um ano na UPA de Araguaína e, no final de 2024, foi para São Paulo com o marido, que passou na residência, e com a clareza de quem foi buscar oportunidades que a cidade pequena ainda não oferece. Ela está lá até hoje, na capital, na luta diária de quem escolheu crescer profissionalmente antes de voltar para perto de casa.
O Dr. Mateus Sena Noleto se formou em julho de 2025, poucos meses atrás, com CRM ainda fresco, e já trabalha no Hospital Regional de Araguaína, em emergência, UTI e como auxiliar na enfermaria de neurocirurgia. Em novembro de 2025, foi trinta dias para São Paulo: prestou provas de residência no HC, trabalhou em hospitais públicos e particulares em Guarulhos, sentiu o peso da cidade e voltou. Mas com data marcada para ir de novo, porque quer neurocirurgia, e neurocirurgia não tem residência no Tocantins.
QUANDO A FAGULHA VIRA DECISÃO
Quando perguntei à Larissa qual foi o momento em que ela decidiu de verdade que iria, a resposta foi direta: oportunidade. Não no sentido vago que essa palavra costuma ter, mas no sentido concreto de hospitais de referência, densidade de casos clínicos, possibilidade real de especialização e um leque de trabalho que simplesmente não existe em cidades do porte de Araguaína.
O Mateus foi mais objetivo ainda. Para quem quer se especializar em neurocirurgia, São Paulo não é opção, é obrigação. Então ele foi com um plano: fazer as provas, conhecer a cidade por dentro, trabalhar, entender como funciona a rotina e voltar com clareza sobre o que está buscando. Trinta dias que valeram por muito mais do que o tempo.
O que os dois têm em comum é algo que me parece fundamental destacar: nenhum dos dois foi por impulso. Foram com intenção. Com objetivos definidos. Com rede de apoio, a Larissa com o marido e a irmã morando na capital, o Mateus com a Larissa como referência de quem já estava lá antes.
Isso não é detalhe. É exatamente o que separa uma mudança que transforma de uma mudança que apenas desestabiliza.
O CHOQUE QUE NENHUM RELATO PREPARA COMPLETAMENTE
A parte mais honesta da conversa foi sobre o que realmente surpreende quando se chega em São Paulo vindo do interior.
Não é o tamanho da cidade. Não é o volume de pacientes. É a segurança ou a ausência da naturalidade com que a gente vive em cidades menores.
A Larissa me contou do primeiro dia em que pegou o metrô. Foi num dia de chuva, quando todo mundo abandona o carro e o metrô vira o que ela chamou de “lata de sardinha humana”. Ela me disse que começou a chorar, não de fraqueza, mas de choque genuíno com uma realidade que nenhum relato de amigo consegue preparar completamente. Empurra-empurra na plataforma, gestante sendo pressionada para entrar no vagão, celular guardado no fundo do bolso, atenção constante o tempo todo.
Para quem cresceu numa cidade onde o celular fica em cima da mesa do restaurante sem nenhum segundo pensamento, esse nível de vigilância permanente cansa de um jeito diferente e é um ajuste que leva tempo.
O Mateus trouxe outra perspectiva igualmente reveladora: o trajeto de dez minutos de casa até o trabalho que ele tem aqui em Araguaína virou uma hora e quinze minutos em São Paulo. No começo, isso parece impossível de absorver. Com o tempo, ele começou a usar esse tempo de forma diferente, ouvindo podcast, estudando, processando o dia. O que era perda virou rotina produtiva. Mas exige uma reorganização completa de como você estrutura a sua vida.
O QUE SÃO PAULO TEM QUE ARAGUAÍNA AINDA NÃO TEM
Além dos desafios, os dois foram precisos sobre o que São Paulo oferece que ainda não é realidade aqui e isso me interessa muito como médico e como educador.
O Mateus trouxe um exemplo que ficou comigo: em São Paulo, no pronto-socorro de trauma onde ele trabalhou em Guarulhos, quem atende na porta é o cirurgião. Não o plantonista generalista que aciona o especialista depois. O especialista está presente desde o primeiro contato com o paciente. Aqui em Araguaína, é o médico de plantão que faz a triagem e chama o especialista quando necessário. Essa diferença no fluxo inicial tem impacto direto no manejo e o Mateus, com poucos meses de formado, já foi capaz de identificar essa distinção com clareza clínica.
A Larissa falou sobre volume e complexidade. Em Araguaína, um plantão de manhã na UPA pode ter vinte atendimentos. Em São Paulo, ela chegou a atender cinquenta pacientes só pela manhã, num serviço que era referência para três UPAs simultaneamente. Esse volume não é só estatística, é exposição clínica. É raciocínio sendo testado em velocidade acelerada, sob pressão real, com casos que aqui raramente chegam.
O CÁLCULO QUE NINGUÉM FAZ ANTES DE EMBARCAR
Teve um momento da conversa que achei especialmente importante e que raramente aparece nas discussões entusiasmadas sobre mudar para São Paulo: o custo real de viver lá.
O salário por plantão em São Paulo pode ser quase três vezes maior do que em Araguaína. Esse número impressiona e é verdadeiro. Mas o que fica de lado nessa comparação é que o custo de vida também é completamente diferente.
A Larissa foi direta: em Araguaína, ela morava num apartamento de oitenta metros quadrados pagando dois mil reais de aluguel e condomínio. Em São Paulo, está num de quarenta metros quadrados pagando quase cinco mil. O Uber de ida e volta por plantão pode custar entre cem e duzentos reais. O que parecia ser uma equação simples de ganhar mais vira, na prática, uma equação de administrar com muito mais cuidado.
O Mateus calculou tudo isso antes de decidir voltar e está voltando de olhos abertos. Não porque São Paulo não vale. Mas porque ele entende agora o que compensa e o que consome. Essa consciência, construída na prática, é uma das coisas mais valiosas que ele trouxe na bagagem.
O QUE ESSA EXPERIÊNCIA REVELA SOBRE FORMAÇÃO MÉDICA
Escutando os dois, fui tomado por uma reflexão que carrego há anos no ensino e na mentoria:
A escola médica do interior forma médicos tecnicamente competentes. Temos aqui profissionais sérios, dedicados, que operam, atendem e resolvem casos complexos todos os dias. Mas existe uma dimensão da formação que só acontece quando você se retira do ambiente familiar e se coloca num contexto onde as referências que você tinha não funcionam da mesma forma.
Não estou falando só de volume de pacientes ou de tecnologia disponível. Estou falando de maturidade profissional. Da capacidade de funcionar num ambiente desconhecido, com ritmo diferente, com lógica organizacional diferente, com o suporte afetivo a um voo de distância.
O Mateus disse algo que me marcou: “Acho que é o preço que tem que se pagar para evoluir. É o momento da vida disso mesmo.” Ele estava às bordas do burnout em alguns momentos. Chegava em casa exausto, tinha que cuidar da casa, tinha que estudar para as provas de residência. E não se arrependeu de nada.
A Larissa disse que não gosta de São Paulo, que não vê a hora de voltar para Araguaína, para perto da família, para uma qualidade de vida diferente. E também não se arrependeu. Porque ela sabe distinguir o que é fase do que é destino.
PARA QUEM ESTÁ PENSANDO EM DAR ESSE PASSO
Se você está no internato e já sente que precisa de mais do que sua cidade oferece. Se você é recém-formado e está pesando se vale largar o conforto do conhecido. Se você quer se especializar numa área que não existe na sua região e está adiando a decisão por medo do que não conhece.
Você não está sozinho nessa dúvida.
Sair do interior para um grande centro médico não é uma decisão sobre onde você quer morar. É uma decisão sobre quem você quer se tornar como médico e em quanto tempo quer chegar lá.
São Paulo não é o único caminho. Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Campinas têm programas de residência e mercados que oferecem esse mesmo salto. O que importa não é a cidade, é a intenção com que você vai.
Se for com objetivo claro, com organização financeira, com rede de apoio e com consciência do que está buscando, a experiência tem tudo para ser transformadora. A Larissa e o Mateus são a prova viva disso: médicos formados aqui no Tocantins, que foram enfrentar São Paulo sem manual, e voltaram, ou ficaram, mais inteiros do que foram.
Porque um bom médico não é aquele que fica na zona de conforto esperando a carreira acontecer. É aquele que sabe onde, como e por que quer continuar crescendo.
🎙️ Assista agora ao episódio completo do podcast Entre Neurônios:
YouTube:https://youtu.be/qVU0UavxJ2U
Spotify:https://open.spotify.com/episode/2bEkfrqEn03707R1E0U7Sb?si=v0R_7FIJRB-XDtKQdyb7vw
Com participação da Dra. Larissa Brasil Cavalcanti (@larissabraasil) e do Dr. Mateus Sena Noleto (@mateussen_)
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